A bomba-relógio não pulsava ainda . Há uma altura em que nos damos conta disso , não gostamos , sentimo-nos expulsos do paraíso , mas carregamos todos a bomba-relógio da nossa própria morte . Eu , que gostava das trovoadas , das pedras e das folhas … isso era mais importante do que quem me rodeava . Vivia na tal eternidade sem saber . Não se tratava de afeto , era a intensidade de ver . Não era o pensamento , era um cântaro que se enche de água . Eu não gostava mais da terra do que da minha família . Estava era muito mais atenta . Lembro-me de uma trovoada de verão . O calor era sufocante , o céu branco-cinza irrespirável , e estávamos cá fora com o Avô Albano . E vi um relâmpago em bola , foi estranho e ainda é estranho . Depois , tinha eu sete anos , o Avô morreu . E lembrome de descer a ladeira , vinda da casa dos Avós , e perceber que nunca mais a minha vida seria a mesma . Vejo-o no salão , deitado na urna , fato preto , com jarras de cravos brancos dos lados , e não consigo lembrar-me do atordoamento do meu coração . Um dia , já em Coimbra , teria uns 11 ou 12 anos , percebi se súbito que era eu , que estava sozinha , sem Pais , individualizada da massa que era a família . Éramos cinco desde que eu me lembrava da existência . Como disse o José Luís Peixoto , seremos sempre cinco . A pôr a mesa , éramos cinco . Os pais e as três irmãs . Um número ímpar e perfeito .
63