Fluir nº 8 - Novembro 2021 | Page 63

Ou então , nascemos de um choque entre membranas e ciclicamente nasceremos e morreremos . Tal como ele , sinto-me grata , não a um deus , mas a este cachoar de inteligência que nos dá tanto entretenimento e vertigem . Acreditar , seja no que for , é o que se leva desta vida . Somos todos primos uns dos outros , até mesmo das estrelas de neutrões . Mas experimentarão eles a vertigem ? A minha melhor amiga não pode pensar nisto sem ficar tonta . Estávamos a falar disto em cimo de uns penedos de granito , a olhar a noite beirã . Viam-se mais aviões que estrelas , na verdade . Mas dava para divagar – os nomes árabes das estrelas , Mizar , Algol , Megrez , Alnitak , ainda mais estranhos que elas - , a posição da Cassiopeia , a toalha de praia de Orion que se espraiava a sul ao fim da noite . E a minha amiga a cair no vazio , na eternidade , sem sentir que a laje de granito ou o cri-cri dos grilos a seguravam para sempre . Lembro-me de uma noite de verão , teria eu seis anos . Seria o meu aniversário ? Estávamos cá fora , depois de jantar , e havia pirilampos que púnhamos debaixo de copos . Agarrá-los era decepcionante , corpinhos farruscos e indefesos : libertámos logo os desgraçados dos bichos . O Avô Joaquim tinha-me dado um caleidoscópio . Os grilos serrazinavam no azul escuro e o meu Pai apontava-nos as estrelas e os respetivos nomes , numa calidez escura de felicidade .

A bomba-relógio não pulsava ainda . Há uma altura em que nos damos conta disso , não gostamos , sentimo-nos expulsos do paraíso , mas carregamos todos a bomba-relógio da nossa própria morte . Eu , que gostava das trovoadas , das pedras e das folhas … isso era mais importante do que quem me rodeava . Vivia na tal eternidade sem saber . Não se tratava de afeto , era a intensidade de ver . Não era o pensamento , era um cântaro que se enche de água . Eu não gostava mais da terra do que da minha família . Estava era muito mais atenta . Lembro-me de uma trovoada de verão . O calor era sufocante , o céu branco-cinza irrespirável , e estávamos cá fora com o Avô Albano . E vi um relâmpago em bola , foi estranho e ainda é estranho . Depois , tinha eu sete anos , o Avô morreu . E lembrome de descer a ladeira , vinda da casa dos Avós , e perceber que nunca mais a minha vida seria a mesma . Vejo-o no salão , deitado na urna , fato preto , com jarras de cravos brancos dos lados , e não consigo lembrar-me do atordoamento do meu coração . Um dia , já em Coimbra , teria uns 11 ou 12 anos , percebi se súbito que era eu , que estava sozinha , sem Pais , individualizada da massa que era a família . Éramos cinco desde que eu me lembrava da existência . Como disse o José Luís Peixoto , seremos sempre cinco . A pôr a mesa , éramos cinco . Os pais e as três irmãs . Um número ímpar e perfeito .
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