Fluir nº 8 - Novembro 2021 | Page 62

62 chorosas , cobardes ; eram sogras , tias beatas ou ninfomaníacas , e os almanaques estavam cheios de anedotas sobre o assunto . Chefes , poder , autoridade , igreja católica – filamentos que mal se viam , palavras maiúsculas que era de bom tom evocar , a rija membrana que envolvia a célula gelatinosa e trémula de Portugal . Subordinação pela inércia e pelo medo . Subordinação sotto voce , subordinação implícita , subordinação pesada e imponderável , cosida no ar , na água , no vinho e no calendário da aldeia . Não se podia falar que algo estava “ mal ”. Este “ mal ” era uma vasta planície onde cabia imensa coisa – a pide , a censura , a pequenez , a pobreza , a visão míope da economia , da cultura e da saúde , os presos políticos . A opressão era algo que se comia com a sopa de couve . Não se dava por ela . Havia tantos sorrisos , tanta reverência , tanto alívio pela ordem estabelecida . Os meus Pais falavam-nos do seu descontentamento . O meu Pai era idealista e crédulo , a minha Mãe não , mas estava peada por outros atavismos – também ela tinha uma rígida ordem interior dentro de si , que se prendia com a condenação do sexo e da alegria do sexo . A Tia Bertha Carolina tinha deixado um longo rasto vitoriano que nunca desapareceu . Os chefes da nação . Os professores . Os padres . Os médicos . Os juízes , os advogados . Os chefes de repartição . Os regedores .

Os homens . Todos com um halo em volta dos corpos poderosos esmagando o mundo com uma arrogância ingénua , uma aceitação contente , acéfala e mansa da ordem das coisas . Mais ou menos como sucede agora , mas com outras cores do espetro . Alguns capítulos da gramática da ordem pouco mudaram . Toda este arrazoado da submissão estava tão longe de mim como as chamas da lareira . Nunca a pareidolia me levou a refletir , apenas a enovelarme no nada , no caos pardacento da tarde a olhar as labaredas no fogão de ferro . Não mexa no fogo , senão faz xixi na cama . De onde teria vindo isto ?
Mais um documentário sobre o cosmos . Buracos negros . Nebulosas entrechocam-se . Pulsares cantam ritmos que nos são familiares , fazem-nos dançar . Stephen Hawking fala do universo : a matéria e a energia visíveis e mensuráveis são apenas o outro lado , simétrico , do que não existe . Quanto mais energia / matéria existe , mais energia / matéria negra existe do outro lado , claro . A sua soma é sempre zero . Mas o que é provocou esta quebra , esta fissura do zero entre o ser e o não-ser ? Diz o Stephen que nada o provocou . Não é necessário um criador para o nada . E nada existia antes do início , nem tempo , nem espaço . É lindo , é lógico , é provável .