No largo do Freixo havia a escola dos rapazes e a escola das raparigas – lado a lado , separadas por uma pequena escadaria de pedra .
De cada lado , uma ameixoeira ( quem as terá plantado ?). A ameixoeira das raparigas , do lado esquerdo , todos os anos carregava a sério , ficava amarela de ameixas , os ramos dobravam-se e precisavam de escoras para não partir . A ameixoeira dos rapazes tinha meia dúzia de ameixas , se tanto , e era triste e raquítica . Questão de solo , as raízes do lado dos rapazes só tinham saibro para comer . Mesmo assim , acho que foi uma lição avant la lettre das ameixoeiras . Um ano , a professora decidiu fazer doce de ameixa . Não me lembro como foi , só me lembro de grandes açafates de vime entrançado cheios de ameixas amarelas , de cestos de pão fresco , muito pão , e de toda a gente lambuzada a comer aquela merenda de festa . Ainda cheiro as partículas desse terramoto de verão : fazer uma coisa que não estava prevista e que não mais se repetiria .
O grande atrator existia , claro . Aquilo que fazia girar os dias em torno do destino . O que era ? A subordinação . Subordinação das mulheres face aos homens . Não interessava a classe , a idade , a origem , a riqueza . Todas as mulheres eram fracas e inferiores por definição , não por maldade . Eram tontas , incapazes de aprender , precisavam de quem olhasse por elas . Eram tagarelas , inconsequentes , pouco importantes ; eram incapazes de raciocinar ,
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