Fluir nº 8 - Novembro 2021 | Page 61

isso foi a minha tia que caiu dentro de um poço castanho e nunca mais voltou à superfície . Davame vontade de a sentar ao meu colo como quem embala uma boneca feia , para ver se lhe conseguia arrancar um sorriso . Mas a cara dela tinha sempre a cor perplexa do mesmo dia da semana . A minha Mãe está aqui , ainda tem uns sorrisos de ternura que me desfazem o coração , mas já não está , perdeu a sua lança , já não caça nem colhe , nem semeia nem respira , nem contempla – a não ser , talvez , o vazio e a raiva de já não poder . Tem o seu imenso silêncio a um canto , dentro de um corpo pequenino e magro , tem as suas impaciências – mas tudo num tamanho minúsculo , de quem já não importa ao mundo , de quem já não ocupa lugar nenhum , a não ser nas prateleiras das fraldas e nos caixas de remédios com muitas divisões . A minha Mãe abraça-me e sinto cada uma das suas costelas , cada vez me dobro mais para lhe dar um beijo . E será que quero dar-lhe um beijo , daqueles que o coração pede ? A minha Mãe já iniciou a sua viagem para fora do mundo , tal como eu , está e já não está . Mais um amor esquizofrenizante como são todos os amores , sempre divididos pelo cérebro onde tudo começa e acaba .

No largo do Freixo havia a escola dos rapazes e a escola das raparigas – lado a lado , separadas por uma pequena escadaria de pedra .
De cada lado , uma ameixoeira ( quem as terá plantado ?). A ameixoeira das raparigas , do lado esquerdo , todos os anos carregava a sério , ficava amarela de ameixas , os ramos dobravam-se e precisavam de escoras para não partir . A ameixoeira dos rapazes tinha meia dúzia de ameixas , se tanto , e era triste e raquítica . Questão de solo , as raízes do lado dos rapazes só tinham saibro para comer . Mesmo assim , acho que foi uma lição avant la lettre das ameixoeiras . Um ano , a professora decidiu fazer doce de ameixa . Não me lembro como foi , só me lembro de grandes açafates de vime entrançado cheios de ameixas amarelas , de cestos de pão fresco , muito pão , e de toda a gente lambuzada a comer aquela merenda de festa . Ainda cheiro as partículas desse terramoto de verão : fazer uma coisa que não estava prevista e que não mais se repetiria .
O grande atrator existia , claro . Aquilo que fazia girar os dias em torno do destino . O que era ? A subordinação . Subordinação das mulheres face aos homens . Não interessava a classe , a idade , a origem , a riqueza . Todas as mulheres eram fracas e inferiores por definição , não por maldade . Eram tontas , incapazes de aprender , precisavam de quem olhasse por elas . Eram tagarelas , inconsequentes , pouco importantes ; eram incapazes de raciocinar ,
61