contou, rindo, que sofreu preconceito
“por ser a trans menos feminina”. No local,
ficavam diversas pessoas com diversas
histórias diferentes. E, para ela, mesmo
com a questão do preconceito, passar
pelo abrigo foi um marco na trajetória.
Lá, ela conheceu vidas destruídas por
contextos, pessoas, lugares, drogas. E isso
a fez enxergar as coisas de uma forma
mais realista, mais existencial. Mas de
uma forma boa.
Luna descreveu um dos piores dias de
sua vida quando saiu de lá: sem dinheiro,
sem trabalho, sem casa, sem ninguém.
Foi a primeira vez que ela literalmente
passou fome. Não de ficar algumas horas
sem comer. O dia todo. A noite toda.
Ela acendeu outro cigarro depois de me
contar isso.
Com o objetivo de quebrar um pouco o
clima tenso que se instalara na conversa,
perguntei sobre alguns desenhos jogados
em cima de uma caixa de papelão
encostada na parede de divisória. Eram
ilustrações feitas à lápis e à caneta, todos
preto e brancos, envolvendo rostos, bocas
e cogumelos.
Ela pegou uma pasta e me entregou
suavemente. Abri a pasta preta e vi alguns
rascunhos inacabados. Ideias puras
guardadas em papeis e que poderiam se
tornar verdadeiras obras de arte quando
finalizadas.
“Eu quero ser tatuadora.” disse ela logo
depois de eu comentar como seus traços
lembravam ilustrações de tatuagem.
A primeira exposição artística dela
Com um traço bem característico, alguns desenhos chegam próximos do surrealismo
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Foto: Lucas Martinez