Eu Tenho Histórias Edição Única | Page 158

contou, rindo, que sofreu preconceito “por ser a trans menos feminina”. No local, ficavam diversas pessoas com diversas histórias diferentes. E, para ela, mesmo com a questão do preconceito, passar pelo abrigo foi um marco na trajetória. Lá, ela conheceu vidas destruídas por contextos, pessoas, lugares, drogas. E isso a fez enxergar as coisas de uma forma mais realista, mais existencial. Mas de uma forma boa. Luna descreveu um dos piores dias de sua vida quando saiu de lá: sem dinheiro, sem trabalho, sem casa, sem ninguém. Foi a primeira vez que ela literalmente passou fome. Não de ficar algumas horas sem comer. O dia todo. A noite toda. Ela acendeu outro cigarro depois de me contar isso. Com o objetivo de quebrar um pouco o clima tenso que se instalara na conversa, perguntei sobre alguns desenhos jogados em cima de uma caixa de papelão encostada na parede de divisória. Eram ilustrações feitas à lápis e à caneta, todos preto e brancos, envolvendo rostos, bocas e cogumelos. Ela pegou uma pasta e me entregou suavemente. Abri a pasta preta e vi alguns rascunhos inacabados. Ideias puras guardadas em papeis e que poderiam se tornar verdadeiras obras de arte quando finalizadas. “Eu quero ser tatuadora.” disse ela logo depois de eu comentar como seus traços lembravam ilustrações de tatuagem. A primeira exposição artística dela Com um traço bem característico, alguns desenhos chegam próximos do surrealismo 158 Foto: Lucas Martinez