chegara nela com o único objetivo de
saber sua história. Os lábios destacados
e robustos levemente se entortavam com
as risadas tímidas.
Luna acendeu um cigarro. Durante
os comentários sobre o dia a dia,
percebi como ela levava as coisas de
forma realista e alegre, com um olhar
humilde, mas experiente. Sempre rindo,
quebrando a timidez pouco a pouco, ela
guiava o tom das próprias lembranças,
mesmo que não fossem agradáveis.
Era como uma música que ela estivesse
compondo constantemente. Mesmo que
as lembranças fossem ruins, a melodia
de sua voz podia fazer a história ter um
timbre suave e terno.
Lembro-me que uma das únicas vezes
que o sorriso sincero foi quebrado
foi quando me contou como viera
parar naquele lugar. Direta, com a voz
tremendo levemente, afirmou que foi
expulsa de casa pela mãe por ser trans. Foi
aí que os dentes levemente afastados com
sua expressão serena foram substituídos
por uma feição desanimada, sem graça,
melancólica como a personagem de Björk
em Dançando no Escuro, do cineasta
dinamarquês Lars von Trier, e quase que
expressando uma aceitação existencial:
"o que eu poderia fazer além de seguir
em frente?".
De cigarro em cigarro, a história de Luna foi sendo contada
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