Eu Tenho Histórias Edição Única | Page 156

chegara nela com o único objetivo de saber sua história. Os lábios destacados e robustos levemente se entortavam com as risadas tímidas. Luna acendeu um cigarro. Durante os comentários sobre o dia a dia, percebi como ela levava as coisas de forma realista e alegre, com um olhar humilde, mas experiente. Sempre rindo, quebrando a timidez pouco a pouco, ela guiava o tom das próprias lembranças, mesmo que não fossem agradáveis. Era como uma música que ela estivesse compondo constantemente. Mesmo que as lembranças fossem ruins, a melodia de sua voz podia fazer a história ter um timbre suave e terno. Lembro-me que uma das únicas vezes que o sorriso sincero foi quebrado foi quando me contou como viera parar naquele lugar. Direta, com a voz tremendo levemente, afirmou que foi expulsa de casa pela mãe por ser trans. Foi aí que os dentes levemente afastados com sua expressão serena foram substituídos por uma feição desanimada, sem graça, melancólica como a personagem de Björk em Dançando no Escuro, do cineasta dinamarquês Lars von Trier, e quase que expressando uma aceitação existencial: "o que eu poderia fazer além de seguir em frente?". De cigarro em cigarro, a história de Luna foi sendo contada 156