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não foram encontrados na estrada , mas em casa , porque o pai de Amaro não queria que ele seguisse as pedaladas dele , porque sabia das “ dificuldades do desporto ”. Só que , depois de “ muita teimosia ”, lá recebeu uma bicicleta ao passar de ano na escola . Desde então , nunca mais parou . “ Queria estar na rua e andar de bicicleta e era feliz assim . Aliás , quando os meus amigos me perguntavam se queria jogar a bola com eles , muitas vezes era eu que os convencia a andar de bicicleta comigo . Foi sempre uma vivência ligada às duas rodas ”, confessou . Ainda assim , o primeiro ano a competir não foi o melhor . “ Comecei em 2005 . Não tinha experiência e pensava que dois treinos por semana era mais do que suficiente para competir ”, admitiu . “ Começar assim era normal ” para um cadete , continuou . O virar da página chegaria em Trás-Os-Montes , numa corrida da Taça de Portugal que o deixou “ envergonhado ”. “ Depois de os meus pais me levarem desde o Algarve , pela primeira vez e , já júnior , terminou o segundo ano com 30 vitórias . “ Ganhei os campeonatos nacionais de estrada , os de contrarrelógio , a Taça de Portugal e a Volta a Portugal de juniores . Foi um lote de vitórias que me deu uma boa bagagem para continuar motivado a nível sénior ”, admitiu . A que se deve este sucesso madrugador ? “ Muitas vezes temos que ter talento e também uma paixão pela modalidade , mas , acima de tudo , valorizo ter tido o meu pai a acompanhar-me nas camadas jovens ”, começou por responder antes de se centrar numa palavra : trabalho . “ Na minha cabeça , eu já era profissional , mesmo não o sendo . Não ia para uma discoteca nem saía com os meus amigos . Não há nada de mal em fazer isso , mas eu só vivia para o ciclismo ”. Esta mentalidade conduziu-o ao estatuto de atleta de alta-competição , para poder treinar no horário escolar . Seguiram-se sessões de “ três a quatro horas diárias ”, uma “ disciplina ” que viria
“ Não precisei de pensar muito . Sabia que seria muito bom para mim voltar a vestir de azul e branco , era a decisão certa , não tinha dúvidas .”
sem antes explicar a razão dessa distinção . “ Nos juniores , grande parte dos atletas não treina tão afincadamente , mas , quando chegam a este novo patamar , praticamente todos os corredores já levam o ciclismo como profissão , como vida ”. No escalão sénior , as diferenças são ainda maiores . “ Já não podemos olhar para nós ”, explicou . “ No profissional já há um líder , uma estratégia montada ”. Os resultados apareceram e a W52-FC Porto não perdeu tempo para o contratar . Amaro Antunes assinou com os azuis e brancos em 2017 , comprometendo-se com um projeto ambicioso . “ Identifiqueime bastante com o que a equipa queria ”, admitiu . Também foi na formação portista que conheceu e reencontrou pessoas que se tornaram grandes amigos : “ O Samuel Caldeira é meu padrinho de casamento e convivo com ele diariamente , uma vez que vivemos a 200 metros um do outro . O Ricardo Mestre e o João Rodrigues também são pessoas com quem me dou diariamente e não são só os companheiros do Algarve , mas também os do Norte , como o Rui Vinhas . Esta equipa é uma família ”. O primeiro ano acabou por
“ Lembro-me de [ ainda criança ] me equipar a rigor e subir às cadeiras , a fazer de conta que estava no pódio . Vivia aquilo intensamente ”
o que é uma viagem enorme , ao décimo quilómetro de corrida já tinha descolado do pelotão . Fiquei para trás , junto ao carro-vassoura ”, contou , tendo mesmo sido “ quase forçado a abandonar ”. “ Recordome que chorei durante toda a viagem de regresso . E foi nessa viagem que houve um clique . A partir daí , meti na cabeça que tinha de treinar e que tinha de chegar a cada meta , pelo menos , no pelotão ”, afirmou . Só que as pernas de Amaro deram para mais . No segundo ano de cadetes , venceu a revelar-se muito importante nos patamares que se seguiram .
DE SUB-23 A DRAGÃO WORLD TOUR A chegada ao novo escalão voltou a colocar Amaro novamente com os pés no chão . “ Cada escalão é uma etapa e volta-se sempre ao início . Na Volta a Portugal do futuro , no meu segundo ano como profissional , fiz nono na geral e conquistei a camisola da Montanha , mas notei logo a diferença no salto para os Sub-23 ”, contou ,
REVISTA DRAGÕES NOVEMBRO 2020