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No Estádio
das Antas, em
Junho de 1978,
Seninho festeja
com Gomes,
Oliveira e Freitas
a conquista
do título
SUBSTITUIU LEMOS E CONVENCEU HERNÂNI
Foi um empresário, com negócio
no Lobito, que informou a
delegação do FC Porto em Angola
sobre “um miúdo muito jeitoso de
Sá da Bandeira”, que Hernâni , o
“furacão de Águeda”, deveria ver.
E Seninho, o “jeitoso”, lá foi fazer o
teste. Naquele verão de 1969, saiu
do Lubango de manhã e chegou
ao Lobito já de noite para vestir a
camisola do FC Porto pela primeira
vez. Dormiu e jogou no dia
seguinte, depois de se recompor
como pôde de uma viagem de
400 quilómetros por estradas de
terra batida.
Entrou a substituir Lemos. “Esse
mesmo em que está a pensar”, sorri.
“O que marcou quatro golos ao
Benfica num jogo”. Diz, no entanto,
que ele, Seninho, pouco fez. “Estava
entusiasmadíssimo por estar ali”, a
pisar o mesmo campo em que os
seu ídolos mais pareciam flutuar.
“Só os conhecia dos cromos e dos
relatos. O Rolando, o Pavão, o Rui,
o Américo, o Sucena…”. Insiste,
com um mecânico encolher de
ombros, que nada fez “de especial”.
Para Hernâni, fez o suficiente para
justificar um segundo teste. “Viu
em mim alguns pormenores”,
continua. “Perguntou-me se não
queria treinar com a equipa no dia
seguinte”. É claro que quis.
Treinou com Rui na baliza e
mais dois ou três jogadores cuja
identidade agora não recorda.
Simulou, driblou, cruzou e até
chutou perante adversários
imaginários, que fingia ter de
ultrapassar. No final, o duplo
campeão pelo FC Porto, então na
pele de diretor, aproximou-se de
Seninho e perguntou-lhe: “Queres
vir connosco para a metrópole?”.
Encolheu os ombros e explicou
que não podia responder logo
ali. Tinha que regressar a Sá da
Bandeira, ao Lubango, e perguntar
à família. O FC Porto ainda jogou
no Huambo e em Luanda antes de
regressar a Portugal sem Seninho.
A família já tinha respondido que
“sim senhor”, Seninho podia deixar
tudo para trás e voar para o Porto,
mas os dias passaram-se sem novas
dos Dragões até receber em casa
uma carta de Hernâni a reforçar o
interesse. Já não se lembra do teor
nem das palavras, mas lembra-se
que se encheu de coragem ao lê-la.
“Era uma carta muito rica, que me
deixou arrepiado” e que se perdeu
para sempre quando a família fugiu
à guerra colonial. Acabou por vir. Ele
e Martinho, “um rapaz do Lobito
que, por esta ou aquela razão, não
ficou”. Já Seninho ficou no Lar dos
Jogadores, na Praça das Flores, onde
conheceu Malagueta, Chico Gordo,
Hélder Ernesto, João Maia Ricardo,
Pavão, Lisboa, Salim… “E o Flávio,
pá!”. Esse não podia esquecer. Quase
leva as mãos à cabeça na iminência
de cometer uma grande gafe. “Que
jogador! Era o tipo que mais golos
tinha marcado no Brasil, logo a
seguir ao Pelé. Infelizmente, não se
adaptou ao clima, ao frio”.
TRANSFERÊNCIA PARA O FERROVIÁRIO
CUSTOU 20 PARES DE CHUTEIRAS
Seninho começou a jogar no FC Lubango, filial do FC Porto, mas mudou-se para o Ferroviário
pouco depois de começar a trabalhar nos Caminhos de Ferro de Moçâmedes. A transferência, que
ameaçou dar brado por questões regulamentares, motivou um braço de ferro entre os dois clubes e
só foi resolvido com o pagamento em géneros: o Ferroviário cedeu 20 pares de chuteiras ao Lubango.
REVISTA DRAGÕES JULHO 2020