Dragões #404 Jul 2020 | Page 76

76 No Estádio das Antas, em Junho de 1978, Seninho festeja com Gomes, Oliveira e Freitas a conquista do título SUBSTITUIU LEMOS E CONVENCEU HERNÂNI Foi um empresário, com negócio no Lobito, que informou a delegação do FC Porto em Angola sobre “um miúdo muito jeitoso de Sá da Bandeira”, que Hernâni , o “furacão de Águeda”, deveria ver. E Seninho, o “jeitoso”, lá foi fazer o teste. Naquele verão de 1969, saiu do Lubango de manhã e chegou ao Lobito já de noite para vestir a camisola do FC Porto pela primeira vez. Dormiu e jogou no dia seguinte, depois de se recompor como pôde de uma viagem de 400 quilómetros por estradas de terra batida. Entrou a substituir Lemos. “Esse mesmo em que está a pensar”, sorri. “O que marcou quatro golos ao Benfica num jogo”. Diz, no entanto, que ele, Seninho, pouco fez. “Estava entusiasmadíssimo por estar ali”, a pisar o mesmo campo em que os seu ídolos mais pareciam flutuar. “Só os conhecia dos cromos e dos relatos. O Rolando, o Pavão, o Rui, o Américo, o Sucena…”. Insiste, com um mecânico encolher de ombros, que nada fez “de especial”. Para Hernâni, fez o suficiente para justificar um segundo teste. “Viu em mim alguns pormenores”, continua. “Perguntou-me se não queria treinar com a equipa no dia seguinte”. É claro que quis. Treinou com Rui na baliza e mais dois ou três jogadores cuja identidade agora não recorda. Simulou, driblou, cruzou e até chutou perante adversários imaginários, que fingia ter de ultrapassar. No final, o duplo campeão pelo FC Porto, então na pele de diretor, aproximou-se de Seninho e perguntou-lhe: “Queres vir connosco para a metrópole?”. Encolheu os ombros e explicou que não podia responder logo ali. Tinha que regressar a Sá da Bandeira, ao Lubango, e perguntar à família. O FC Porto ainda jogou no Huambo e em Luanda antes de regressar a Portugal sem Seninho. A família já tinha respondido que “sim senhor”, Seninho podia deixar tudo para trás e voar para o Porto, mas os dias passaram-se sem novas dos Dragões até receber em casa uma carta de Hernâni a reforçar o interesse. Já não se lembra do teor nem das palavras, mas lembra-se que se encheu de coragem ao lê-la. “Era uma carta muito rica, que me deixou arrepiado” e que se perdeu para sempre quando a família fugiu à guerra colonial. Acabou por vir. Ele e Martinho, “um rapaz do Lobito que, por esta ou aquela razão, não ficou”. Já Seninho ficou no Lar dos Jogadores, na Praça das Flores, onde conheceu Malagueta, Chico Gordo, Hélder Ernesto, João Maia Ricardo, Pavão, Lisboa, Salim… “E o Flávio, pá!”. Esse não podia esquecer. Quase leva as mãos à cabeça na iminência de cometer uma grande gafe. “Que jogador! Era o tipo que mais golos tinha marcado no Brasil, logo a seguir ao Pelé. Infelizmente, não se adaptou ao clima, ao frio”. TRANSFERÊNCIA PARA O FERROVIÁRIO CUSTOU 20 PARES DE CHUTEIRAS Seninho começou a jogar no FC Lubango, filial do FC Porto, mas mudou-se para o Ferroviário pouco depois de começar a trabalhar nos Caminhos de Ferro de Moçâmedes. A transferência, que ameaçou dar brado por questões regulamentares, motivou um braço de ferro entre os dois clubes e só foi resolvido com o pagamento em géneros: o Ferroviário cedeu 20 pares de chuteiras ao Lubango. REVISTA DRAGÕES JULHO 2020