Dragões #404 Jul 2020 | Page 77

77 UM “MINHOCA” ENTRE “ESTRELAS” Já campeão português, Seninho foi apresentado em Nova Iorque a 29 de junho de 1978, num hotel da 7.ª Avenida. “Estavam lá umas sete estações televisivas, máquinas fotográficas e flashes por todo o lado”, recorda. “Parecia um chefe de Estado”. Assinou contrato e no dia seguinte fez o seu primeiro jogo nos playoffs da liga norte-americana, contra o Tampa Bay. “Não joguei muito tempo, mas ainda fiz uma assistência para o Chinaglia”. Regressou de imediato a Portugal, chegou às 6h00 a Lisboa, mas o nevoeiro em Pedras Rubras atrasou a ligação para o Porto, onde tinha a noiva à espera. Casou às 13h00 do mesmo dia, 1 de Julho, na Igreja de Santo António das Antas. Quando regressou a Nova Iorque, muito a tempo de ser campeão com o Cosmos, Pelé já só fazia jogos promocionais. Aos jogos a sério chegava de helicóptero. “Era só paz e amor. Era uma estrela”. Mas havia outras na equipa. Seninho jogou com Beckenbauer, Cruijff, Neeskens, Bogicevic, que mais tarde foi treinador do Belenenses, e Carlos Alberto, o capitão do Brasil que “levantou a Jules Rimet em 1970”, lembra com precisão histórica. “Para mim, foi uma das melhores seleções brasileiras de todos os tempos”. Por isso se sentia “minhoca” no meio deles. A aventura americana proporcionou-lhe a oportunidade de conhecer outros ilustres e de viver experiências únicas, como os jantares promovidos pela Warner no restaurante das torres gémeas do World Trade Center. Entre outras celebridades, conheceu o diplomata Henry Kissinger, que tinha sido secretário de Estado dos presidentes Richard Nixon e Gerald Ford, nos festejos de um dos títulos de campeão do Cosmos, o ator Sylvester Stallone, que assistiu com a equipa à antestreia do filme “Rocky II”, em Washington, o cantor e autor Mick Jagger, vocalista e líder dos Rolling Stones, e o tenista Bjorn Borg, de quem era “um grande fã”. O FC Moxico, campeão provincial em 1973, com Seninho (o segundo, em baixo, a contar da esquerda) Ao lado de Beckenbauer no Cosmos TAMBÉM LHE CHAMARAM “CEGUINHO” Seninho não acelerava. “Eu disparava”, corrige. Conta-se que fintava até os polícias que garantiam a segurança nos jogos e que naqueles tempos o faziam muito mais perto do relvado. “O problema é que não tinha ABS”, ri. “Por vezes, só parava depois de esbarrar contra os fotógrafos que estavam junto à linha final”. E foi precisamente para não colidir com um polícia que teve de alargar o drible e o passo. “Para deixar para trás o Tomé, do Setúbal, tive que ir à pista de cinza”. Junto à linha, contornou a oposição do adversário, do polícia e recuperou a bola mais adiante, ao reentrar no terreno de jogo. Os jornalistas deliraram com o lance e no dia seguinte escreveram “qualquer coisa como ‘Seninho finta polícias e tudo!’”. Mas o excesso de velocidade não lhe garantia só vantagens nem títulos nos jornais. Penalizava-o, por vezes. Chegou ao FC Porto “com a escola da rua”, recorda. “Tinha só a minha fantasia, com todos as virtudes e defeitos que ninguém corrigiu”. Tudo o que lhe saía dos pés era “genuíno”, saía em “estado puro”. Para melhor conciliar técnica e rapidez, e sincronizar a velocidade de execução sem esquecer a bola no processo, passou a ter trabalho extra ao final de cada treino, altura em que ficava sozinho. “Só eu e mais dez bolas”. Nos jogos passou a esquecer-se menos da bola e forçando sempre a linha final. “Adorava fazê-lo, saía por lá fora disparado, que é também a razão pela qual me começaram a chamar Ceguinho, em vez de Seninho”. Não levou a mal. “Os defesas sabiam o que eu ia fazer, mas, como eu era tão rápido, não lhes adiantava de nada tentar adivinhar os meus pensamentos”. Gomes e Duda, seus parceiros no ataque, também não precisavam fazê-lo, porque já estavam avisados: “Antes dos jogos, voltava-me para eles e dizia: Quando eu arrancar com a bola, ponham-se um ao primeiro poste e outro ao segundo, porque eu vou cruzar muitas vezes sem olhar”. A razão por que o fazia é simples: “A velocidade era tanta que a bola fugiame, se eu tirasse os olhos dela”. Está explicado. GUERRA DO ULTRAMAR FEZ DELE CAMPEÃO COLONIAL Seninho regressou a Angola mais cedo do que imaginava e por motivos absolutamente incompreensíveis para os jornalistas norte-americanos que, vários anos mais tarde, acompanharam a apresentação do jogador no Cosmos, em Nova Iorque. “Explique-me uma coisa”, levantou-se um deles. “Foi de Angola para Portugal e depois foi para Angola lutar por quem?”. Num momento decisivo da carreira, Seninho deixou as Antas, desviado pela Guerra do Ultramar. Esteve durante dez meses no meio do mato, perto da fronteira com a Zâmbia, e foi posteriormente destacado para o hospital militar do Moxico. Aproveitou a colocação para voltar a jogar, agora no FC Moxico, filial do FC Porto. “Corri Angola quase toda no campeonato provincial”, conta. “Nem imagina a alegria que dávamos àquelas pessoas. Ainda hoje me arrepio só de lembrar. Eles não tinham mais nada, estavam no meio da guerra”. Foi campeão colonial em 1973, com dez pontos de vantagem sobre o segundo classificado.