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UM “MINHOCA”
ENTRE “ESTRELAS”
Já campeão português, Seninho foi apresentado em Nova
Iorque a 29 de junho de 1978, num hotel da 7.ª Avenida.
“Estavam lá umas sete estações televisivas, máquinas
fotográficas e flashes por todo o lado”, recorda. “Parecia um
chefe de Estado”. Assinou contrato e no dia seguinte fez
o seu primeiro jogo nos playoffs da liga norte-americana,
contra o Tampa Bay. “Não joguei muito tempo, mas ainda fiz
uma assistência para o Chinaglia”. Regressou de imediato
a Portugal, chegou às 6h00 a Lisboa, mas o nevoeiro em
Pedras Rubras atrasou a ligação para o Porto, onde tinha a
noiva à espera. Casou às 13h00 do mesmo dia, 1 de Julho,
na Igreja de Santo António das Antas.
Quando regressou a Nova Iorque, muito a tempo de ser
campeão com o Cosmos, Pelé já só fazia jogos promocionais.
Aos jogos a sério chegava de helicóptero. “Era só paz e amor.
Era uma estrela”. Mas havia outras na equipa. Seninho jogou
com Beckenbauer, Cruijff, Neeskens, Bogicevic, que mais
tarde foi treinador do Belenenses, e Carlos Alberto, o capitão
do Brasil que “levantou a Jules Rimet em 1970”, lembra com
precisão histórica. “Para mim, foi uma das melhores seleções
brasileiras de todos os tempos”. Por isso se sentia “minhoca”
no meio deles.
A aventura americana proporcionou-lhe a oportunidade
de conhecer outros ilustres e de viver experiências únicas,
como os jantares promovidos pela Warner no restaurante
das torres gémeas do World Trade Center. Entre outras
celebridades, conheceu o diplomata Henry Kissinger, que
tinha sido secretário de Estado dos presidentes Richard
Nixon e Gerald Ford, nos festejos de um dos títulos de
campeão do Cosmos, o ator Sylvester Stallone, que assistiu
com a equipa à antestreia do filme “Rocky II”, em Washington,
o cantor e autor Mick Jagger, vocalista e líder dos Rolling
Stones, e o tenista Bjorn Borg, de quem era “um grande fã”.
O FC Moxico, campeão provincial em 1973, com Seninho
(o segundo, em baixo, a contar da esquerda)
Ao lado de
Beckenbauer
no Cosmos
TAMBÉM LHE CHAMARAM “CEGUINHO”
Seninho não acelerava. “Eu disparava”, corrige. Conta-se que fintava até os polícias
que garantiam a segurança nos jogos e que naqueles tempos o faziam muito
mais perto do relvado. “O problema é que não tinha ABS”, ri. “Por vezes, só parava
depois de esbarrar contra os fotógrafos que estavam junto à linha final”. E foi
precisamente para não colidir com um polícia que teve de alargar o drible e o
passo. “Para deixar para trás o Tomé, do Setúbal, tive que ir à pista de cinza”. Junto
à linha, contornou a oposição do adversário, do polícia e recuperou a bola mais
adiante, ao reentrar no terreno de jogo. Os jornalistas deliraram com o lance e no
dia seguinte escreveram “qualquer coisa como ‘Seninho finta polícias e tudo!’”.
Mas o excesso de velocidade não lhe garantia só vantagens nem títulos nos
jornais. Penalizava-o, por vezes. Chegou ao FC Porto “com a escola da rua”,
recorda. “Tinha só a minha fantasia, com todos as virtudes e defeitos que
ninguém corrigiu”. Tudo o que lhe saía dos pés era “genuíno”, saía em “estado
puro”. Para melhor conciliar técnica e rapidez, e sincronizar a velocidade de
execução sem esquecer a bola no processo, passou a ter trabalho extra ao final
de cada treino, altura em que ficava sozinho. “Só eu e mais dez bolas”. Nos jogos
passou a esquecer-se menos da bola e forçando sempre a linha final. “Adorava
fazê-lo, saía por lá fora disparado, que é também a razão pela qual me começaram
a chamar Ceguinho, em vez de Seninho”. Não levou a mal. “Os defesas sabiam o
que eu ia fazer, mas, como eu era tão rápido, não lhes adiantava de nada tentar
adivinhar os meus pensamentos”. Gomes e Duda, seus parceiros no ataque,
também não precisavam fazê-lo, porque já estavam avisados: “Antes dos jogos,
voltava-me para eles e dizia: Quando eu arrancar com a bola, ponham-se um
ao primeiro poste e outro ao segundo, porque eu vou cruzar muitas vezes sem
olhar”. A razão por que o fazia é simples: “A velocidade era tanta que a bola fugiame,
se eu tirasse os olhos dela”. Está explicado.
GUERRA DO ULTRAMAR
FEZ DELE CAMPEÃO COLONIAL
Seninho regressou a Angola mais cedo do que imaginava e por motivos
absolutamente incompreensíveis para os jornalistas norte-americanos que,
vários anos mais tarde, acompanharam a apresentação do jogador no Cosmos,
em Nova Iorque. “Explique-me uma coisa”, levantou-se um deles. “Foi de Angola
para Portugal e depois foi para Angola lutar por quem?”. Num momento decisivo
da carreira, Seninho deixou as Antas, desviado pela Guerra do Ultramar.
Esteve durante dez meses no meio do mato, perto da fronteira com a Zâmbia,
e foi posteriormente destacado para o hospital militar do Moxico. Aproveitou a
colocação para voltar a jogar, agora no FC Moxico, filial do FC Porto. “Corri Angola
quase toda no campeonato provincial”, conta. “Nem imagina a alegria que dávamos
àquelas pessoas. Ainda hoje me arrepio só de lembrar. Eles não tinham mais nada,
estavam no meio da guerra”. Foi campeão colonial em 1973, com dez pontos de
vantagem sobre o segundo classificado.