Dragões #404 Jul 2020 | Page 75

75 imprensa internacional ficou curiosa. “Queriam saber de que galáxia era aquela equipa que tinha dado 4-0 ao Manchester United”. A segunda mão começou de véspera, com uma ameaça de bomba no hotel, que tinha como único objetivo perturbar o sono dos jogadores. Pinto da Costa, então chefe do departamento de futebol, tranquilizou a comitiva. Era falso alarme. 2 de novembro de 1977, chegava o dia. “A equipa estava tranquila”, conta Seninho. “Afinal, eram 4-0”. Mas tudo mudou à saída do túnel de Old Trafford. “Entrámos sem medo nenhum, mas assim que pusemos os pés no relvado ele parecia tremer com os cânticos”. Para completar o cenário, “os adeptos batiam com os pés nas bancadas de madeira”. “Era uma coisa ensurdecedora, um barulho infernal”, reconstitui, ainda hoje fascinado com o misto de sensações que o ambiente despertava: “Aquilo era lindo, mas, ao mesmo tempo, assustador”. O jogo acabou por ser “uma enorme aflição”. Muda de semblante só de pensar. “Eles sempre em cima de nós, aqueles cruzamentos…”. Como se não bastasse, Murça fez um autogolo, o 2-1 para o United. “Aí eles ganharam uma força extraordinária”, que Seninho temeu verdadeiramente. Murça ainda faria um segundo golo na baliza errada, o quinto dos ingleses, quando a eliminatória já estava fechada. “Ao tentar aliviar, quase em cima da linha de golo, meteu a bola mesmo ao ângulo” para desespero de Fonseca. Ainda leva as mãos à cabeça para juntar a carga dramática que a descrição do lance merece. SILÊNCIO EM OLD TRAFFORD O melhor da história tinha sido escrito antes, em duas linhas diagonais e, por vezes, aos ziguezagues. Respira fundo e começa pelo princípio, pelo primeiro golo, que arrefeceu o entusiasmo do United, que tinha marcado cedo, logo aos oito minutos. “A jogada é tão boa…”, avisa, antes de recuperar o momento e colocar a falsa modéstia em fora de jogo. “O Gabriel dá-me a bola e o defesa esquerdo deles quase me convida para ir para a linha de cabeceira”. Seninho, que não era parvo, fingiu aceitar, mas logo fletiu para dentro. Quando o adversário girou para se recompor, voltou a driblar para a linha e novamente “QUERIAM [A IMPRENSA INTERNACIONAL] SABER DE QUE GALÁXIA ERA AQUELA EQUIPA QUE TINHA DADO 4-0 AO MANCHESTER UNITED” para dentro. “Ele caiu!”. Arrancou a pensar: “Aquele já está arrumado”. Não estava sozinho, contudo. “Aparecem-me dois gajos na dobra”, continua. “Simulo que chuto, dou mais um toque e logo depois a chapada com o pé esquerdo”. Alex Stepney só recuperou a bola no fundo das redes. “O pontapé nem foi muito forte, mas saiu rasteiro e, Cosmos, um mundo à parte No dia seguinte ao jogo de Manchester, Seninho tomou o pequeno-almoço com os dois proprietários da Warner Communications, empresa-mãe da Warner Brothers também detentora do Cosmos. “Quase que me engasgava com o que ouvi”, conta. Ofereceram-lhe meio milhão de dólares, “qualquer coisa como 20 mil contos”, por três épocas. Cerca de 100 mil euros, que há 40 anos valeriam muito mais do que hoje. “Fiquei logo como o Tio Patinhas”, admite. “Só via cifrões, cifrões e mais cifrões”. Ganhava 25 contos (125 euros) por mês e o Cosmos propunha-lhe um vencimento mensal de mil contos (cinco mil euros), “com casa em Manhattan e outras mordomias”. Queriam levá-lo de imediato, mas Seninho tinha contrato até ao final da época e um campeonato para ganhar. “Estávamos na corrida para o título”, contextualiza. “Estávamos decididos a quebrar um jejum de 19 anos, tínhamos que estar muito concentrados e, parecendo que não, aquilo desequilibrou-me um pouco”, reconhece. “Era muito dinheiro!”. No Porto, informou o chefe de departamento de futebol e o treinador sobre a oferta. “Já na altura era difícil negociar com o Pinto da Costa”, sorri. “Foi difícil, foi duro”. No treino ninguém o segurou, passou por tudo e por todos. “Parti aquilo tudo!”. E chamou a atenção de José Maria Pedroto, que interrompeu o treino para o levar ao gabinete. Quis perceber o que se passava. “Sim, ele via muito à frente”, confirma. Pedroto lembrou-o do que tinham pela frente e perguntou-lhe se podia contar com ele. “Sim, mister. Vou concentrar-me”, prometeu Seninho. Meses depois, o FC Porto voltava a ser campeão. antes de chegar ao guarda-redes, bateu na relva, ganhou velocidade e saiu disparada”. 1-1. Ao intervalo, com o resultado em 3-1 para os ingleses, Seninho pediu repetidamente que lhe “metessem” a bola. “Eles não me conhecem, não sabem quem sou”, insistiu. Diz-se que era Oliveira quem conheciam, que era o 10 do FC Porto que motivava a presença de um número invulgar de observadores nas bancadas. O Manchester United voltaria a marcar, quase anulando a vantagem que o FC Porto tinha levado das Antas, antes de Octávio fazer a vontade a Seninho. “Fiz uma incursão da direita para a esquerda e gritei por ele, para que me passasse a bola”. Octávio assim fez. “Meteu no espaço vazio”. Só no arranque, o “Mirage” deixou dois adversários para trás. “O guardaredes sai, finto-o e passo por ele”. Mas a baliza já não estava deserta quando se preparava para marcar. Os dois defesas que tinha deixado para trás recuperaram e estavam já sobre a linha de golo. “Se chuto, eles intercetam”, pensou. “O barulho era ensurdecedor, mas naquele momento não se ouvia uma mosca”. O golo acabava com a reviravolta inglesa. Recuperou ângulo de remate e simulou o pontapé com força, antes de colocar a bola entre as pernas de um dos opositores, que se tinha contraído. “A bola ainda lhe bateu num dos pés e ganhou um efeito que não permitiu ao outro evitar o golo”. Estava feito o 4-2 e já nem uma catástrofe poderia tirar o FC Porto da Taça das Taças. No final do jogo, o agente de Seninho deulhe conta das propostas de quatro clubes que o queriam levar das Antas, um deles já no dia seguinte. Mas o Cosmos, de Nova Iorque, ainda teria que esperar sete meses para o ter. Os outros interessados eram o Inter de Milão, o Atlético de Madrid e o próprio Manchester United. REVISTA DRAGÕES JULHO 2020