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imprensa internacional ficou
curiosa. “Queriam saber de que
galáxia era aquela equipa que
tinha dado 4-0 ao Manchester
United”. A segunda mão começou
de véspera, com uma ameaça de
bomba no hotel, que tinha como
único objetivo perturbar o sono
dos jogadores. Pinto da Costa, então
chefe do departamento de futebol,
tranquilizou a comitiva. Era falso
alarme.
2 de novembro de 1977, chegava
o dia. “A equipa estava tranquila”,
conta Seninho. “Afinal, eram 4-0”.
Mas tudo mudou à saída do túnel de
Old Trafford. “Entrámos sem medo
nenhum, mas assim que pusemos
os pés no relvado ele parecia tremer
com os cânticos”. Para completar o
cenário, “os adeptos batiam com
os pés nas bancadas de madeira”.
“Era uma coisa ensurdecedora,
um barulho infernal”, reconstitui,
ainda hoje fascinado com o misto
de sensações que o ambiente
despertava: “Aquilo era lindo, mas,
ao mesmo tempo, assustador”.
O jogo acabou por ser “uma enorme
aflição”. Muda de semblante só de
pensar. “Eles sempre em cima
de nós, aqueles cruzamentos…”.
Como se não bastasse, Murça fez
um autogolo, o 2-1 para o United.
“Aí eles ganharam uma força
extraordinária”, que Seninho
temeu verdadeiramente. Murça
ainda faria um segundo golo na
baliza errada, o quinto dos ingleses,
quando a eliminatória já estava
fechada. “Ao tentar aliviar, quase
em cima da linha de golo, meteu
a bola mesmo ao ângulo” para
desespero de Fonseca. Ainda leva
as mãos à cabeça para juntar a carga
dramática que a descrição do lance
merece.
SILÊNCIO EM OLD TRAFFORD
O melhor da história tinha sido
escrito antes, em duas linhas
diagonais e, por vezes, aos
ziguezagues. Respira fundo e
começa pelo princípio, pelo
primeiro golo, que arrefeceu o
entusiasmo do United, que tinha
marcado cedo, logo aos oito
minutos. “A jogada é tão boa…”, avisa,
antes de recuperar o momento
e colocar a falsa modéstia em
fora de jogo. “O Gabriel dá-me a bola
e o defesa esquerdo deles quase
me convida para ir para a linha de
cabeceira”. Seninho, que não era
parvo, fingiu aceitar, mas logo fletiu
para dentro. Quando o adversário
girou para se recompor, voltou a
driblar para a linha e novamente
“QUERIAM [A IMPRENSA
INTERNACIONAL] SABER DE QUE
GALÁXIA ERA AQUELA EQUIPA QUE TINHA
DADO 4-0 AO MANCHESTER UNITED”
para dentro. “Ele caiu!”. Arrancou a
pensar: “Aquele já está arrumado”.
Não estava sozinho, contudo.
“Aparecem-me dois gajos na dobra”,
continua. “Simulo que chuto, dou
mais um toque e logo depois a
chapada com o pé esquerdo”. Alex
Stepney só recuperou a bola no
fundo das redes. “O pontapé nem
foi muito forte, mas saiu rasteiro e,
Cosmos, um mundo à parte
No dia seguinte ao jogo de Manchester, Seninho tomou
o pequeno-almoço com os dois proprietários da Warner
Communications, empresa-mãe da Warner Brothers também
detentora do Cosmos. “Quase que me engasgava com o que
ouvi”, conta. Ofereceram-lhe meio milhão de dólares, “qualquer
coisa como 20 mil contos”, por três épocas. Cerca de 100 mil euros,
que há 40 anos valeriam muito mais do que hoje. “Fiquei logo como o Tio
Patinhas”, admite. “Só via cifrões, cifrões e mais cifrões”. Ganhava 25 contos
(125 euros) por mês e o Cosmos propunha-lhe um vencimento mensal de mil
contos (cinco mil euros), “com casa em Manhattan e outras mordomias”.
Queriam levá-lo de imediato, mas Seninho tinha contrato até ao final da época e
um campeonato para ganhar. “Estávamos na corrida para o título”, contextualiza.
“Estávamos decididos a quebrar um jejum de 19 anos, tínhamos que estar
muito concentrados e, parecendo que não, aquilo desequilibrou-me um pouco”,
reconhece. “Era muito dinheiro!”. No Porto, informou o chefe de departamento de
futebol e o treinador sobre a oferta. “Já na altura era difícil negociar com o Pinto
da Costa”, sorri. “Foi difícil, foi duro”. No treino ninguém o segurou, passou por
tudo e por todos. “Parti aquilo tudo!”. E chamou a atenção de José Maria Pedroto,
que interrompeu o treino para o levar ao gabinete. Quis perceber o que se passava.
“Sim, ele via muito à frente”, confirma. Pedroto lembrou-o do que tinham pela
frente e perguntou-lhe se podia contar com ele. “Sim, mister. Vou concentrar-me”,
prometeu Seninho. Meses depois, o FC Porto voltava a ser campeão.
antes de chegar ao guarda-redes,
bateu na relva, ganhou velocidade
e saiu disparada”. 1-1.
Ao intervalo, com o resultado em
3-1 para os ingleses, Seninho pediu
repetidamente que lhe “metessem”
a bola. “Eles não me conhecem, não
sabem quem sou”, insistiu. Diz-se
que era Oliveira quem conheciam,
que era o 10 do FC Porto que
motivava a presença de um
número invulgar de observadores
nas bancadas. O Manchester United
voltaria a marcar, quase anulando
a vantagem que o FC Porto tinha
levado das Antas, antes de Octávio
fazer a vontade a Seninho. “Fiz
uma incursão da direita para a
esquerda e gritei por ele, para que
me passasse a bola”. Octávio assim
fez. “Meteu no espaço vazio”. Só no
arranque, o “Mirage” deixou dois
adversários para trás. “O guardaredes
sai, finto-o e passo por ele”.
Mas a baliza já não estava deserta
quando se preparava para marcar.
Os dois defesas que tinha deixado
para trás recuperaram e estavam já
sobre a linha de golo. “Se chuto, eles
intercetam”, pensou. “O barulho
era ensurdecedor, mas naquele
momento não se ouvia uma mosca”.
O golo acabava com a reviravolta
inglesa. Recuperou ângulo de
remate e simulou o pontapé com
força, antes de colocar a bola entre
as pernas de um dos opositores, que
se tinha contraído. “A bola ainda lhe
bateu num dos pés e ganhou um
efeito que não permitiu ao outro
evitar o golo”. Estava feito o 4-2 e já
nem uma catástrofe poderia tirar o
FC Porto da Taça das Taças. No final
do jogo, o agente de Seninho deulhe
conta das propostas de quatro
clubes que o queriam levar das
Antas, um deles já no dia seguinte.
Mas o Cosmos, de Nova Iorque, ainda
teria que esperar sete meses para o
ter. Os outros interessados eram o
Inter de Milão, o Atlético de Madrid
e o próprio Manchester United.
REVISTA DRAGÕES JULHO 2020