Dragões #404 Jul 2020 | Page 74

74 SENINHO SEJA EU! Era tão rápido, tão rápido, que lhe chamavam “Mirage”. A velocidade que atingia no relvado inspirou várias comparações e a mais criativa de todas ganhou asas e fez dele um caça supersónico, um dos mais bem-sucedidos da história da aviação militar. No resultado de outras imagens, um pouco menos ousadas, ficou também conhecido por “Fórmula 1”, “Speedy Gonzalez” e “Expresso do Norte”. Morreu a 4 de julho, aos 71 anos. Esta é a última grande entrevista de Seninho, que recuperamos tal qual a publicámos na edição de março de 2017. No presente histórico, como ele merece. ENTREVISTA de ALBERTO BARBOSA NOME ARSÉNIO “SENINHO” RODRIGUES JARDIM DATA DE NASCIMENTO 1 DE JUNHO DE 1949 DATA DE FALECIMENTO 4 DE JULHO DE 2020 NATURALIDADE LUBANGO, ANGOLA NACIONALIDADE PORTUGUESA CLUBES FC LUBANGO FERROVIÁRIO FC PORTO NEW YORK COSMOS CHICAGO STING TÍTULOS 1 LIGA PORTUGUESA 1 TAÇA DE PORTUGAL 4 LIGA NORTE-AMERICANA Seninho, alto e esguio, fazia 10,08 segundos aos 100 metros, marca registada por Hernâni Gonçalves num treino. Não sabe se contra o vento ou a favor dele, mas desconfia que o fez sem o calçado adequado. “Às vezes era tão rápido que chegava à linha final e tinha que ficar à espera que o Gomes e o Duda chegassem”, recorda com um sorriso, ainda de desafio. Só depois dirigia o passe. “Sim, porque eu não era um goleador”, explica. “Eu fazia passes de morte”. Anos mais tarde, ainda antes de Calvin Smith retirar dois centésimos de segundo ao recorde mundial do hectómetro e correr a distância em 9,93 segundos, um jornalista norte-americano perguntou-lhe por que não tinha preferido o atletismo ao futebol. Na altura não soube responder, mas hoje interroga-se “se não poderia ter sido um Carl Lewis…”. Trinta e nove anos depois, os motivos da escolha parecem-lhe mais claros do que nunca. O que Seninho realmente queria era “uma bolinha para jogar”. Desde criança, dos tempos em que o Lubango, em Angola, ainda era Sá da Bandeira. “Tinha um prazer enorme ao jogar futebol. Sábado sem pesca nem futebol não era sábado para mim”, recorda. “Não era sequer fim de semana”. Ainda hoje, depois de tantas vezes ter jogado em estádios cheios, de ter conquistado troféus e aplausos, para o “Mirage” nada se compara à “inocência” e ao “autêntico” das peladas noturnas no descampado atrás de casa da avó. “Jogar ao luar de África era extraordinário, era uma coisa fabulosa… É impossível não ficar nostálgico”, pede desculpa. É também à noite, mas já na Europa, que Seninho encontra o golo da vida dele. Bom, na verdade são dois, porque os vê, revê e não consegue decidir. Sabe apenas que o marcou naquele jogo da Taça das Taças em Manchester, onde fez “dois golos com uma arte extraordinária”. Um deles é o tal, é o golo de uma vida. AMEAÇA DE BOMBA NO HOTEL Na primeira mão da segunda eliminatória, nas Antas, o FC Porto tinha surpreendido o Mundo. “Ganhámos cá 4-0, com três golos do Duda e um do Oliveira”. Lembra-se como se fosse hoje. Lembra-se também de como a REVISTA DRAGÕES JULHO 2020