Dragões #478 Set 2026 | Page 77

ANDEBOL
SETEMBRO 2026 REVISTA DRAGÕES passo a acompanhar alguns jogos. Antes não tinha, nem sequer tinha familiares ou amigos que jogassem.
Sempre jogou a pivô? Na verdade, nunca fui pivô. Sempre joguei a lateral esquerdo. Só comecei a jogar a pivô aos 18 anos. Na altura, fui convocado para a seleção brasileira de juvenis – apesar de não jogar muito no ataque, era muito utilizado na defesa – e o treinador, que era o mesmo da equipa sénior, disse-me que a seleção tinha muitos jogadores naquela posição, mas que havia mais vagas como pivô e que era um posto específico no qual poderia ter algum futuro. Foi uma troca drástica e inesperada, mas, em três ou quatro meses, fui distinguido como melhor pivô do escalão no Brasil e foi essa mudança que me levou a ter o sucesso que tive até agora.
Ainda hoje é notória essa influência na sua movimentação, por vezes com recurso à finta individual. Sim, acho que ainda tenho algo do passado dentro de mim. Estou longe de ter a qualidade dos grandes laterais esquerdos que temos no plantel ou mesmo dos melhores jogadores brasileiros a nível mundial, mas sei como me movimentar porque passei a vida a fazer isso e tento ajudar a equipa da melhor forma. Se vir que existe a possibilidade de ir no um contra um, vou. Às vezes até brinco, porque quando pego na bola, nessas situações, os meus colegas até ficam com medo. Às vezes acerto, noutras não corre tão bem.
Como se deu a mudança para a Europa? Já surgiu numa fase em que eu era mais maduro, já tinha vivido quatro anos fora de casa. Claro que ainda regressava a casa quase todos os fins de semana, tinha a minha família perto, portanto mudam muitas coisas quando temos de mudar de país e de continente. Estava a dez horas de viagem de ver a minha família, estava muito longe de toda a gente. Foi mesmo no final da pandemia, em 2021, portanto ainda havia muitas restrições de viagem para o Brasil, tanto que os meus pais demoraram a visitar-me pela primeira vez. Foi uma experiência complicada por estes motivos, mas toda a gente que estava comigo em Espanha recebeu-me muito bem e ajudou-me imenso, o que fez com que a adaptação fosse o mais fácil possível. Há também a questão do
idioma, que não é assim tão diferente, por isso já conseguia comunicar com quase toda a gente. Fui aperfeiçoando o espanhol com o passar do tempo, mas consegui comunicar desde que cheguei. Isso ajudou muito. A cidade gosta imenso de andebol, isso era algo a que não estava habituado, porque as pessoas passavam por mim na rua e queriam tirar fotografias e conversar. Comecei a viver isso em Espanha e todo esse ambiente fez com que a adaptação fosse um pouco mais fácil do que poderia ter sido.
Chega a Espanha para jogar num dos melhores campeonatos europeus. A diferença era grande para a competição no Brasil? Sim. Nos primeiros meses notei muito a diferença técnica e física, principalmente a física. No Brasil o jogo é muito mais parado, por mais que tenhamos evoluído. Aqui na Europa joga-se muito mais rápido, o que exige muito mais fisicamente. A parte técnica e tática também são muito importantes, portanto tive de me adaptar. Para isso, muito contribuiu o meu treinador, o Manolo Cadenas, que me ajudou imenso. Estou-lhe muito grato por todo o trabalho que fez comigo, fosse em treinos coletivos ou individuais, ou simplesmente por me chamar à parte e
“ NA VERDADE, NUNCA FUI PIVÔ. SEMPRE JOGUEI A LATERAL ESQUERDO. SÓ COMECEI A JOGAR A PIVÔ AOS 18 ANOS.”
falar comigo para me ajudar em tudo o que precisasse. Ele foi fundamental para que conseguisse render mais rapidamente.
Nessa altura cruzou-se com o Antonio Martínez e com o Miguel Oliveira. Tinham uma boa relação? Sim, claro. Estive dois anos com o Antonio e foi um grande amigo que o andebol me deu. É uma pessoa incrível, damo-nos muito bem, costumávamos passar o tempo todo a rir. A equipa era muito jovem, nós também, e tínhamos uma relação muito boa. Depois apanhei o Miguel Oliveira no meu último ano em León, que foi o mais complicado por causa da mudança de treinador, e a nossa relação também foi muito boa. Criei relações de amizade e respeito com eles e, quando tive os primeiros contactos do FC Porto, falei com eles. Só me disseram coisas boas e ajudaram muito na minha vinda para o Porto. Estou muito feliz por reencontrar estes dois amigos aqui.
Ainda durante a estadia em Espanha, estreou-se pela seleção brasileira. O que significou representar o seu país? É uma experiência incrível. Saber que algo com que sonhei durante tanto tempo finalmente chegou e estar entre os melhores jogadores brasileiros a
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