Dragões #478 Set 2026 | Page 44

FUTEBOL
SETEMBRO 2026 REVISTA DRAGÕES

Um destino com direção

Numa entrevista concedida a John Obi Mikel, André Villas-Boas recorreu a uma palavra japonesa para definir a ligação ao FC Porto. Chama-se ikigai e designa aquilo que dá sentido à vida. O destino pode explicar a chegada à presidência, mas governar o clube exige escolhas bastante mais concretas. Estabilizar as contas, reconstruir a equipa, confiar nas pessoas certas e antecipar um mercado que deixou de esperar pelo FC Porto são algumas das decisões de um mandato que atravessou a turbulência antes de encontrar direção.
De adepto a treinador e presidente, André Villas-Boas fez do FC Porto um projeto de vida. A Obi Mikel, antigo jogador que orientou no Chelsea, explicou como quer preservar a identidade do clube e dar estabilidade às conquistas.

A conversa tinha uma inversão curiosa. Em 2011 / 12, André Villas-Boas orientava John Obi Mikel no Chelsea; agora era o antigo médio a fazer as perguntas ao presidente do FC Porto. Entre ambos estavam 15 anos e uma mudança de função que não apagou o treinador, retirando-lhe, contudo, o controlo direto sobre o jogo.“ Enquanto presidente, o meu papel é escolher as pessoas certas, colocálas nos sítios certos e deixá-las trabalhar com toda a sua criatividade e profissionalismo”, explicou. O treinador decide, corrige e volta a decidir. O presidente escolhe quem decide e espera pelo resultado.“ Sofremos muito à espera que elas correspondam às expectativas”, reconheceu, antes de admitir que ganhar no banco é mais prazeroso. A presidência chegou no fim de um percurso que já tinha passado por quase todos os lugares do clube. Villas-Boas treinou na formação, trabalhou com José Mourinho, integrou o departamento de scouting, saiu, voltou para orientar a equipa principal e conquistou Supertaça, campeonato, Liga Europa e Taça de Portugal. Regressou em 2024 para disputar umas eleições contra o presidente mais titulado da história do futebol e encontrou no resultado uma missão:“ Servir esta instituição e deixá-la melhor do que estava quando aqui cheguei.” A ideia vinha de trás. Quando treinava o Zenit, recebeu a mensagem de uma funcionária do FC Porto a antecipar-lhe a presidência.“ Foi como um chamamento de vida”, recordou. A frase ficou guardada, atravessou os anos e ganhou forma quando começou a preparar a candidatura. Hoje, Villas-Boas não admite regressar aos bancos. A separação está feita, embora o cheiro da relva ainda o devolva por instantes ao treinador que foi. A primeira entrada no centro de treinos como presidente foi o momento mais difícil. As bolas espalhadas, o relvado e a proximidade de um lugar onde tinha realizado alguns dos maiores sonhos devolveram-lhe por instantes a antiga função.“ Senti que aquele era o lugar a que eu pertencia.” Durou um dia. Depois, a presidência voltou a impor a distância necessária.

Primeiro, estabilizar O início do mandato não ofereceu muito tempo para contemplações.
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