Dragões #478 Set 2026 | Page 45

FUTEBOL
SETEMBRO 2026 REVISTA DRAGÕES
No Chelsea, André Villas-Boas dava indicações a Obi Mikel. Anos depois, o antigo médio dos“ blues” fez as perguntas numa conversa que ligou as memórias do treinador aos desafios do presidente.
André Villas-Boas descreve o primeiro ano como“ uma montanha-russa” e“ muito stressante”, marcado por problemas financeiros, mudanças estruturais e uma época desportiva que terminou longe do desejado. A primeira resposta foi procurada nas receitas do Estádio do Dragão e na valorização de contratos existentes. O objetivo consistia em recuperar margem sem transferir a fatura para quem é dono do clube.“ Os nossos donos são os sócios e não queremos esvaziar-lhes os bolsos”, afirmou. Essa condição limita o acesso imediato ao dinheiro, mas preserva algo que o presidente considera uma vantagem competitiva. Um clube de associados conhece a sua origem, a sua história e as pessoas que representa. Não depende da identidade de um investidor nem precisa de a reconstruir sempre que muda de proprietário. Villas-Boas levou a ideia até uma formulação particularmente direta:“ Não podemos ter um benfiquista a trabalhar no departamento de marketing, por exemplo.” O exemplo pode concentrar as atenções, mas o argumento é mais largo. Para o presidente, proteger o FC Porto também significa garantir que quem o serve compreende a sua cultura e não precisa que ela lhe seja traduzida. Resolvida a urgência financeira, faltava corrigir o campo.“ A nível desportivo foi mais complicado, porque não estivemos à altura”, reconheceu. A resposta passou por Francesco Farioli
e por um investimento próximo dos 100 milhões de euros na reconstrução da equipa. O resultado, sustenta, é“ o plantel mais valioso do futebol português”, entregue a“ ótimos jogadores e um ótimo treinador” capazes de oferecer estabilidade a longo prazo. A confiança em Farioli não esperou que o campeonato a justificasse. O contrato foi renovado em dezembro, antes da conquista do título, porque a administração já acreditava no trabalho desenvolvido.“ Ele também acredita em nós”, acrescentou Villas-Boas. Num futebol habituado a despedir primeiro e a explicar depois, o FC Porto decidiu prolongar antes de celebrar.
Um mercado que deixou de esperar
A estabilidade interna não elimina a desigualdade exterior. A Premier League já não retira apenas os melhores jogadores aos clubes portugueses; começa a chegar antes deles. O caso de Caleb Yirenkyi serve de medida. O FC Porto negociou com o Nordsjaelland, aproximou-se do limite e parou. O médio seguiu para o Coventry City por 27 milhões de euros mais bónus. Noutra altura, admite Villas-Boas, o percurso mais provável teria incluído uma etapa em Portugal antes da transferência para um dos grandes ingleses. Agora, até os clubes que lutam pela permanência conseguem saltar essa estação.“ Está a tornar-se cada vez mais difícil competir com eles”, reconheceu.
A resposta obriga a antecipar a observação: encontrar aos 16, 17 ou 18 anos os jogadores que, pouco depois, já estarão fora do alcance português. Oskar Pietuszewski chegou aos 17, Eirik Granaas aos 16 e Gabriel Mec aos 18. Não são apenas apostas no futuro, são consequências de um mercado que encurtou o tempo disponível para descobrir. A concentração de jovens em Inglaterra poderá, contudo, abrir outra porta. Villas-Boas prevê que muitos fiquem sem espaço, acumulem mudanças de clube e acabem por procurar noutros campeonatos os minutos que o dinheiro não lhes garantiu. O problema estará nos salários que entretanto passaram a receber, dificilmente comportáveis para os clubes portugueses. Gabri Veiga oferece uma variação dessa história. Trocou cedo a Europa pela Arábia Saudita, mas quis recuperar o futebol europeu, a Champions e uma progressão que não se mede apenas pelo contrato. O presidente acredita que a Premier League poderá produzir um movimento semelhante dentro de dois ou três anos: acumular talento em excesso e devolvê-lo a um mercado que já não consegue pagar-lhe da mesma forma. O FC Porto terá, por isso, de continuar a mudar sem perder aquilo que o distingue. Encontrar mais cedo, desenvolver melhor, oferecer competição e construir valor num contexto em que o dinheiro inglês altera trajetos antes considerados naturais. A história permanece; o caminho até ao talento é que deixou de ser o mesmo. André Villas-Boas chama ikigai ao lugar que encontrou no FC Porto. O termo ajuda a explicar a ligação sem simplificar a tarefa. O destino levou-o da bancada ao banco, do banco à presidência e entregoulhe o clube que sempre quis servir. A partir daí, já não basta acreditar no chamamento. É preciso dar-lhe direção.
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