Dragões #476 Jul 2026 | Page 78

ARQUIVO ABERTO
JULHO 2026 REVISTA DRAGÕES

A taça invisível

Nem a taça se deixa ver, nem o campo se deixa visitar. Da primeira Taça Ibérica, conquistada pelo FC Porto frente ao Bétis em 1935, não se conhece qualquer imagem do troféu. Do Campo do Ameal, onde os Dragões venceram por 4-2, também já não resta o recinto. Ficaram o resultado, os três golos de Pinga, a derrota do campeão espanhol e uma história que parece crescer à medida que quase tudo nela desaparece.
TEXTO de ALBERTO BARBOSA

Nem todas as taças precisam de aparecer numa fotografia para ocupar lugar na história. Algumas brilham numa vitrina, polidas, catalogadas, com legenda, luz própria e lugar marcado, e outras sobrevivem de forma mais estranha, apenas num resultado, numa ficha de jogo, numa tarde de verão e numa pergunta que nunca perdeu graça: afinal, quem viu a Taça Ibérica de 1935? A resposta curta é esta: viu-se o jogo, viu-se o FC Porto ganhar, viu-se Pinga destruir o campeão espanhol, viu-se o Ameal cheio e viu-se a Península sentarse por uma tarde à mesa do futebol. Do troféu, porém, não sobra imagem pública conhecida. Talvez tenha existido, talvez tenha sido discreto, talvez tenha passado de mão em mão sem tempo para posar, talvez a ideia fosse maior do que a taça. O certo é que a história ficou e que a memória tem destas ironias capazes de atribuir maior peso a uma taça invisível do que a muitas taças fotografadas de todos os ângulos. A 7 de julho de 1935, o Campo do Ameal recebeu uma ideia simples e pioneira: pôr frente a frente os campeões de Portugal e de Espanha. De um lado, o FC Porto, vencedor da primeira edição do Campeonato da Liga. Do outro, o Bétis, que tinha acabado de conquistar a única liga espanhola da sua história, feito ainda hoje tratado em Sevilha como página sagrada. O encontro tinha qualquer coisa de supertaça peninsular antes de as supertaças serem uma rotina do calendário. Portugal contra Espanha, Porto contra Sevilha, azul e branco contra verde e branco, dois campeões nacionais a medirem forças num tempo em que as viagens internacionais ainda tinham mais pó do que marketing. A tarde foi levada a sério. Estiveram 15 mil espectadores no Ameal, acompanhados por autoridades civis, militares e consulares, sinal de que o jogo não era apenas uma visita de cortesia com chuteiras. Havia solenidade, havia curiosidade e havia também aquela eletricidade antiga das grandes ocasiões de saber que alguma coisa estava a ser inaugurada, mesmo que ninguém conseguisse ainda medir o tamanho do que estava a acontecer. O FC Porto de Joseph Szabo chegou ao intervalo a vencer por 1-0, graças a Pocas, médio transmontano em estreia absoluta, que marcou um daqueles golos que parecem ter sido inventados para desafiar a sobriedade das crónicas: de área a área. Depois veio Pinga, e com Pinga veio a parte da história que já não precisa de muito verniz para brilhar. O avançado madeirense fez dois golos, colocou o resultado em 3-0 e parecia ter deixado a Taça Ibérica entregue ao destino natural da tarde. O Bétis, porém, era campeão de Espanha,

não figurante de luxo. Caballero e Unamuno reduziram em dois minutos e devolveram ao jogo um estremecimento. Foi nessa altura que Pinga voltou a entrar em cena. Mais um golo, 4-2 final, hat-trick ao campeão espanhol e o primeiro campeão ibérico encontrado. Vista hoje, a uma distância quase secular, a ficha de jogo tem encanto de documento antigo. Soares dos Reis na baliza, Avelino Martins e Jerónimo na defesa, Pocas, Carlos Pereira, Waldemar Mota, António Santos, Carlos Nunes, Carlos Mesquita e, claro, Pinga, o homem que transformou uma competição quase sem rasto visual numa história impossível de apagar. Do outro lado, o Bétis de Urquiaga, Areso, Aedo, Peral, Gómez, Lecue, Saro, Adolfo, Unamuno, Caballero e Valera. Nomes que pertencem a outro mundo, mas que nesse domingo fizeram do Porto uma pequena capital futebolística da Península. O mais fascinante é o que veio depois. Ou melhor, o que não veio. A Taça Ibérica parecia ter caminho para se tornar uma tradição natural, talvez um ritual anual entre campeões vizinhos, mas a História entrou pelo campo sem pedir licença. No
78