ARQUIVO ABERTO
JULHO 2026 REVISTA DRAGÕES
Na outra página: O jogo ainda não tinha começado e a história já tinha encontrado a sua primeira imagem: Aedo e Waldemar Mota, capitães de Bétis e FC Porto, lado a lado no Campo do Ameal minutos antes de a Taça Ibérica de 1935 ganhar corpo, bola e marcador.
Em cima: O caminho voltou a passar pelo Bétis, como em 1935, mas a final foi decidida frente ao Getafe. Em Portimão, Fábio Silva, com 17 anos e dois dias, fechou a reviravolta e fez o golo que valeu a Copa Ibérica de 2019.
Á esquerda: O Ameal da Taça Ibérica já não existe. Desapareceu da cidade como o próprio troféu desapareceu das imagens. No lugar do campo nasceram outros edifícios, entre uma fábrica de confeções e um bairro camarário, apagando o desenho do recinto mas não a história. Ficaram as fotografias antigas, a memória de um recinto moderno para o seu tempo, o relógio monumental que encabeçava a bancada e, sobretudo, aquela tarde de 1935. Uma conquista sem taça à vista, celebrada num estádio que também já não está lá.
ano seguinte, Espanha mergulhou na Guerra Civil, os campeonatos espanhóis foram suspensos e a prova perdeu continuidade antes de se tornar um hábito. A competição nasceu, brilhou numa tarde e desapareceu quase de imediato, como se tivesse sido interrompida a meio da primeira frase. É por isso que a ausência de uma imagem do troféu não enfraquece a história. Pelo contrário, torna-a mais intrigante. A Taça Ibérica de 1935 é uma relíquia sem rosto. Sabemos onde foi disputada, sabemos quem jogou, sabemos quantos assistiram, sabemos quem marcou, sabemos que o FC Porto venceu. Só não conseguimos ver a taça. Falta-lhe o corpo metálico, mas sobralhe a alma competitiva; falta a fotografia do objeto, mas ficou a imagem perfeita do momento: um campo cheio, um campeão espanhol derrotado e Pinga a marcar três golos numa tarde em que o futebol português atravessou a fronteira sem sair do Porto. É essa condição particular, sem fotografia conhecida nem vitrina à vista, que lhe dá uma narrativa demasiado boa para continuar escondida. Mais de oito décadas depois, em 2019, a ideia voltaria a respirar por uns dias, já em formato de pré-época, com FC Porto, Bétis, Getafe e Portimonense reunidos no Algarve para a Copa Ibérica. O FC Porto voltaria a ganhar. Primeiro ao Bétis, nas grandes penalidades, depois ao Getafe, na final, por 2-1, com Pepe a lançar a reviravolta e Fábio Silva, então com 17 anos e dois dias, a fechá-la. Era outra competição, outro futebol, outro mundo, ainda sem saber que a pandemia de COVID-19 viria pouco depois fechar calendários, adiar planos e suspender continuidades. Mas havia ali um eco antigo, quase como se 1935 tivesse deixado uma porta entreaberta e a Península tivesse decidido voltar a espreitar por ela por três noites de julho. Quase um século depois da tarde do Ameal, André Villas-Boas voltou a abrir a porta. Em outubro de 2025, durante o Portugal Football Summit, o presidente do FC Porto defendeu a criação de uma Supertaça Ibérica ou de uma competição capaz de juntar outra vez clubes portugueses e espanhóis em torno de um título peninsular, devolvendo atualidade à velha intuição de 1935. A ideia encontrou recetividade, algum entusiasmo institucional e o obstáculo habitual do futebol moderno: um calendário onde já quase nada cabe. Dois meses mais tarde, o tema chegou a um encontro entre a Liga Portugal e a LaLiga, sinal de que aquela primeira tarde no Ameal continua a resistir ao tempo. A Taça Ibérica pode não ter deixado uma imagem clara do troféu, mas deixou uma ideia suficientemente forte para reaparecer quase cem anos depois. A primeira Taça Ibérica continua a viver nesse lugar raro onde a história e a lenda se encostam uma à outra. Não se sabe ao certo que forma teve o troféu, não se conhece, pelo menos publicamente, uma imagem inequívoca dele, mas talvez esteja aí a beleza do caso. A taça pode ter desaparecido, mas a vitória não. E enquanto houver um 4-2 sobre o campeão espanhol, três golos de Pinga e um domingo de julho no Ameal, o FC Porto continuará a ser dono de uma das conquistas mais curiosas do futebol ibérico: uma taça que quase ninguém viu, mas que ninguém conseguiu apagar.
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