CLUBE
JULHO 2026 REVISTA DRAGÕES
“ GANHAR SEM CONSTRUIR FUTURO É IRRESPONSABILIDADE, EQUILIBRAR CONTAS SEM COMPETIR PARA GANHAR É DESISTÊNCIA.” André Villas-Boas
“ O FC PORTO DÁ TODAS AS CONDIÇÕES AOS ATLETAS
SEM CRIAR NENHUM TIPO DE DISTINÇÃO.” Carla Oliveira
de uma identidade comum, feita de frontalidade, resistência, trabalho e da recusa em deixar que o lugar do Porto seja definido a partir de fora.“ Ninguém nos oferece nada, aquilo que queremos conquistamos”, resumiu. Essa ambição, acrescentou, não pode existir desligada da responsabilidade. Na gestão do clube, o caminho obriga a equilibrar a urgência de vencer com a necessidade de proteger o amanhã.“ Ganhar sem construir futuro é irresponsabilidade, equilibrar contas sem competir para ganhar é desistência.” Entre os dois extremos, o presidente situou o rumo de um mandato que procura recuperar competitividade sem usar as dificuldades como desculpa nem trocar a sustentabilidade por uma vitória imediata. A responsabilidade também ultrapassa os resultados. O FC Porto deve estar – defendeu o presidente –“ onde a cidade precisa dele”: nas escolas, nos bairros, nas instituições sociais, na promoção da atividade física, no apoio à deficiência e no acesso ao desporto.“ A grandeza de um clube não se mede apenas pelas taças que guarda, mas também pelas vidas que consegue transformar.” Foi nesse ponto que a cerimónia deixou de olhar apenas para os homenageados.
André Villas-Boas evocou a situação do Boavista e classificou a perda de atividade de uma instituição centenária como“ uma ferida no património desportivo e social da cidade do Porto”. Defender os clubes, insistiu, é defender as comunidades, a memória e a riqueza social que transportam. Num dia destinado a reconhecer o mérito, houve também espaço para lembrar que nenhuma cidade fica maior com o desaparecimento de uma parte da própria história.
A razão de ser do regresso O discurso regressou depois ao lado pessoal. André Villas-Boas recordou a primeira porta aberta por Sir Bobby Robson, os anos de formação, a aprendizagem ao lado de José Mourinho, a temporada de 2010 / 11 e o percurso que o levou por diferentes países sem o afastar verdadeiramente do Porto.“ Não há saudade sem regresso”, disse, citando Pedro Abrunhosa. O regresso ganhou forma na candidatura à presidência. O projeto recebeu internamente o nome de código“ ikigai”, palavra japonesa usada para definir uma razão de ser, o ponto onde se cruzam aquilo que se ama, aquilo que se sabe fazer e aquilo a que se pode dedicar a vida. Para André Villas-Boas, esse lugar era o
FC Porto. Não como realização individual, fez questão de esclarecer, mas como responsabilidade por“ um bem maior”. A medalha trazia ainda com ela a memória incontornável de Jorge Costa, o eterno capitão, homenageado a título póstumo.“ Há ausências que ocupam todo o espaço e a do Jorge é uma delas”, afirmou André Villas-Boas. Chamoulhe coragem, liderança, frontalidade e lealdade.“ Foi Porto em estado puro.” No início da cerimónia, Pedro Duarte tinha encontrado a frase capaz de aproximar os dois homenageados.“ Sempre que o FC Porto entra em campo, a palavra Porto é dita algures.” O mesmo acontece quando Carla Oliveira entra numa área de competição, representa o clube, Portugal e todos os atletas que continuam a procurar espaço e reconhecimento. Uma medalha municipal tem um nome gravado, mas raramente pertence apenas a uma pessoa. Carla Oliveira partilhou a dela por quem compete sem distinções e nem sempre recebe atenção. André Villas-Boas entregou simbolicamente a dele aos sócios, ao clube, à família e às figuras que lhe abriram caminho. A cidade distinguiu dois percursos e ambos lhe devolveram a homenagem na mesma palavra. Porto.
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