Dragões #476 Jul 2026 | Page 22

FUTEBOL FUTEBOL
JULHO 2026 REVISTA DRAGÕES JUNHO 2026 REVISTA DRAGÕES
Tommy Jackson, o nome que passa quase de raspão por Peaky Blinders, em retrato e num voo que recupera o guarda-redes do Aston Villa na final da Taça de Inglaterra de 1924, perdida para o Newcastle, no Estádio de Wembley.

A senha de Birmingham

Antes de entrar no Dragão, o Aston Villa já tinha passado, de forma discreta mas reveladora, por um dos grandes fenómenos televisivos dos últimos anos. Peaky Blinders, série britânica criada por Steven Knight para a BBC, popularizada pela Netflix e cuja ação decorre na Birmingham do início da década de 1920, fez da cidade dos Shelby uma geografia universal: fábricas, apostas, cavalos, fumo, ambição e uma violência filmada com elegância sombria. É nesse cenário que no segundo episódio da quarta temporada surge uma pergunta capaz de abrir a porta a outra Birmingham, a dos clubes, dos bairros e das rivalidades que não precisam de explicação para quem nasceu ali. Quem a faz é Charlie Strong, um velho aliado da família Shelby e uma daquelas personagens que conhecem Birmingham por dentro, dos canais aos armazéns, dos negócios paralelos aos códigos de rua. Para perceber se um homem é realmente de Birmingham, Charlie não lhe pede documentos, morada ou testemunhas. Pede-lhe futebol.“ Guardaredes dos Blues e do Villa?”, pergunta ele. A resposta surge como senha de entrada: Dan Tremelling no Birmingham

City, Tommy Jackson no Aston Villa. O momento dura pouco, mas diz muito. Em Birmingham, o futebol funciona como código de pertença. Não é apenas passatempo, nem simples ruído de fundo, é uma forma de provar origem, memória e lado da cidade. E é também por isso que a referência ao Aston Villa tem interesse, porque, quando a ficção de Peaky Blinders começa, em 1919, o Villa já era uma instituição antiga. Fundado em 1874 e instalado em Villa Park desde 1897, o clube já tinha estádio, adeptos, rivalidades, títulos e uma identidade cromática impossível de confundir. A série parece naturalmente mais próxima de Small Heath, território associado ao Birmingham City, mas a pergunta de Charlie Strong confirma que nenhum mapa emocional de Birmingham fica completa sem o Villa. Antes da ascensão de Tommy Shelby, antes de a cidade se transformar em mito televisivo e antes de a Netflix levar aquele universo a milhões de espectadores, o Aston Villa já lá estava. Com o seu grená e azul-claro, com Villa Park, com a sua história e com essa capacidade rara de ser, ao mesmo tempo, clube de bairro, clube de cidade e clube europeu.
EM PEAKY BLINDERS, SER DE BIRMINGHAM NÃO SE PROVA COM DOCUMENTOS, MAS COM FUTEBOL. CHARLIE STRONG FAZ A PERGUNTA, DAN TREMELLING E TOMMY JACKSON SÃO OS NOMES CERTOS PARA A RESPOSTA. MAIS DO QUE DOIS GUARDA- REDES, SÃO A PALAVRA-PASSE DE UMA CIDADE.
22 22