Dragões #476 Jul 2026 | Page 23

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UMA NOITE DE FAÍSCA NA TAÇA DA PAZ

FC Porto e Aston Villa já partilhavam um capítulo antigo, escrito longe das grandes noites europeias e do arquivo mais solene. Aconteceu em Málaga, no verão de 2009, numa meia-final da Peace Cup, competição de pré-época com nome de tratado diplomático e nervo de eliminatória, que prometia paz no cartaz e gerou golos, protestos, uma expulsão e uma noite bem mais elétrica do que o título fazia supor. O torneio reunia clubes de várias geografias, espalhava jogos pela Andaluzia e oferecia um cartaz difícil de ignorar. Real Madrid, Juventus, Sevilla, Lyon, Besiktas, Málaga, Aston Villa e FC Porto cruzavam-se num calendário curto, quente e competitivo, daqueles em que a época ainda não começou, mas ninguém gosta de perder. Para os Dragões, que vinham de mais um título nacional e entravam numa nova temporada às ordens de Jesualdo Ferreira, a Peace Cup também servia para testar ideias, integrar reforços e medir a temperatura de uma equipa em reconstrução parcial. A entrada portista foi forte. Em Huelva, frente ao Lyon, Hulk tratou de transformar um amigável internacional em demonstração de potência. Dois golos, vitória por 2-0 e primeiro aviso de que a pré-época também podia ter trovão. Depois bastou um empate sem golos com o Besiktas para garantir o primeiro lugar do grupo e o bilhete para as meias-finais. Do outro lado apareceu o Aston Villa, que também atravessava o seu próprio labirinto andaluz, entre derrota com o Málaga, vitória sobre o Atlante, do México, e passagem à fase seguinte. A meia-final jogou-se a 31 de julho, no Estádio La Rosaleda, e depressa deixou claro que a palavra“ paz” teria vida difícil. O Aston Villa adiantou-se cedo, por Emile Heskey, e ampliou ainda antes do intervalo, por Steve Sidwell. O FC Porto, obrigado a perseguir o jogo, foi encontrando pela frente uma equipa inglesa física, intensa, pouco interessada em tratar a noite como simples treino aberto. O resultado ao intervalo, 2-0 para os homens de Birmingham, deixava os Dragões longe da final e o Villa com um pé em Sevilha. Mas a partida ainda tinha um segundo ato mais áspero. Heskey, que já tinha marcado, acabou por ser expulso depois de um lance com Jorge Fucile, e o Aston Villa ficou reduzido a dez para os últimos 22 minutos. A partir daí, o jogo ganhou uma eletricidade própria, com protestos, duelos mais duros e aquela tensão estranha que às vezes aparece nos particulares quando todos fingem que nada conta e todos jogam como se contasse bastante. O FC Porto tentou aproveitar a superioridade numérica e só reduziu nos descontos, quando Hulk converteu uma grande penalidade e confirmou o seu terceiro golo na competição. Não chegou. O Aston Villa resistiu, seguiu para a final e, dois dias depois, levantou o troféu ao bater a Juventus nos penáltis. Ashley Young foi eleito o melhor jogador do torneio e
A Peace Cup perdeu a paz por instantes.
Emile Heskey e Bruno Alves discutem num dos momentos de maior tensão da meiafinal entre Aston Villa e FC Porto, em Málaga.
Jorge Fucile disputa a bola com Ashley Young, eleito o melhor jogador da Peace Cup de 2009. O uruguaio foi ainda protagonista do lance que deixou o Aston Villa reduzido a dez, após a expulsão de Emile Heskey.
EM MÁLAGA, A TAÇA DA PAZ GANHOU NERVO COMPETITIVO E O ASTON VILLA VENCEU O FC PORTO NUMA MEIA-FINAL DE ALTA TENSÃO.
Hulk, apesar da eliminação, terminou a prova como melhor marcador. Visto à distância, aquele jogo vale mais pelo rasto do que pelo peso competitivo. Não decidiu títulos oficiais, não mudou destinos, não entrou na galeria principal de nenhum dos clubes, mas deixou um encontro raro entre FC Porto e Aston Villa, colocou Hulk no centro da história, apontou aos ingleses o caminho para um troféu internacional de verão e provou que até uma Taça da Paz pode acabar com faísca, cartões e uma meia-final jogada como se Málaga fosse palco de algo mais sério do que aquele mês de julho deixava perceber. Quando o Aston Villa voltou a cruzar-se com o FC Porto, já não trouxe apenas a memória distante de Roterdão 1982, de Villa Park ou da velha Birmingham industrial. Trouxe também essa noite andaluza de 2009, escondida no arquivo dos particulares competitivos, em que os Dragões marcaram por Hulk, os ingleses sobreviveram com dez e o jogo tratou de desmentir o nome da competição.
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