Dragões #474 Mai 2026 | Page 15

MAIO 2026 REVISTA DRAGÕES pública de que a época tinha atravessado a cidade. O FC Porto tinha disputado 34 jornadas, mas o treinador diria, com precisão emocional, que jogou 32 em casa, tantas vezes os adeptos transformaram terrenos adversários em prolongamentos do Dragão. Na consagração, essa energia deixou de caber no estádio. Passou pelo Douro, pela Ribeira, pelas pontes, pelas varandas, pelas ruas, até desembocar nos Aliados.“ Não vimos um metro de espaço vazio”, recorda. Para quem vinha de fora, a festa explicava a dimensão do que tinha sido feito. Para quem é do Porto, talvez tenha explicado outra coisa, talvez tenha explicado que a cidade também precisava daquele reencontro. Farioli percebeu isso desde cedo. Nos primeiros dias, disseram-lhe que tinha de levar a equipa de volta aos Aliados. Era algo que faltava ao clube, mas sobretudo à cidade. O treinador guardou essa frase como quem guarda uma missão e, quando finalmente ali chegou, percebeu que a festa não era um extra, era parte do trabalho concluído. O Dragão, a Ribeira e os Aliados formaram uma linha de emoção contínua, uma corrente azul e branca a ligar equipa, clube e cidade. A conquista deixou de ser apenas o 31.º título de campeão nacional e tornou-se devolução, catarse, paisagem humana. Ainda assim, Farioli não quer que a memória desta equipa se limite à imagem da festa. No Media Day, entre entrevistas sucessivas e perguntas de muitas geografias, deixou uma ideia que talvez seja a sua forma mais simples de pedir justiça ao futuro: gostaria que este FC Porto fosse lembrado como uma equipa feita por jogadores que deram tudo pela camisola. Não fala de genialidade, nem de revolução, nem de laboratório tático. Fala de entrega. De homens. De compromisso. Desde o início, diz, uma das escolhas fundamentais foi essa – mais do que jogadores, escolher homens, porque o talento é importante, mas é acessório quando falta mentalidade.“ As qualidades técnicas são um extra, porque o talento é secundário. Para uma equipa ser bem-sucedida precisa de ter uma mentalidade forte e um ADN claro.”
A FOME PEDE MAIS Essa ideia conduzirá também o mercado. O FC Porto quer melhorar, equilibrar o plantel, ganhar profundidade, acrescentar qualidade e perfis certos, mas sem se afastar da realidade financeira e da matriz humana que sustentou a época. Farioli sabe que o clube não pode resolver tudo apenas com dinheiro, terá de ser mais criativo, mais cirúrgico, mais inteligente, e sente-se confortável nesse triângulo com o presidente, o scouting e a equipa técnica.“ Muitas vezes o presidente propõe-me algumas ideias que eu também lhe ia propor.” Não há garantia de que todas as vontades sejam satisfeitas, mas há uma linha comum de decisões alinhadas com a exigência competitiva e com a sustentabilidade do clube. O futuro já entrou no presente. A Liga Portugal continuará a ser prioridade, mas agora com adversários mais atentos, mais preparados e provavelmente mais agressivos na perseguição. A Liga dos Campeões regressa ao horizonte e Farioli sabe que o FC Porto não entra em competições europeias para fazer turismo competitivo. A exigência será outra, os
estádios serão outros, o nível será mais alto, e para ele será uma primeira experiência na prova. Mas o treinador sabe também que a grande armadilha de uma conquista é a tentação da suficiência:“ Temos de abordar a época com a mesma fome que tivemos na última temporada, porque o maior erro é sentir que isto é suficiente.” O bicampeonato não aparece no discurso como promessa fácil, aparece como trabalho redobrado.“ Para vencer duas vezes, é preciso vencer a primeira e depois fazer tudo de novo.” Há nesta síntese a limpidez das verdades difíceis, porque ganhar não instala ninguém no topo, apenas aumenta a intensidade do vento. O que vem aí será“ ainda mais complicado” do que aquilo que ficou para trás e os jogadores que ficam e os que virão terão de perceber que o esforço não se repete, multiplica-se. O FC Porto precisa disso para ganhar e Farioli também. Quando entrou pela primeira vez no Museu FC Porto e viu os troféus, as conquistas e as lendas, sentiu responsabilidade e privilégio, mas agora já não olha para essa história como um mero visitante. Acrescentou-lhe uma linha, mas recusa a cadeira confortável.“ Ter a oportunidade de ganhar troféus no FC Porto é algo que me motiva desde o primeiro dia.” Será, possivelmente, a imagem mais nítida desta primeira época, a de um treinador que chegou de fora, encontrou uma porta aberta, herdou uma dor, juntou um grupo, ouviu uma cidade, olhou para uma bandeira nos dias difíceis e acabou nos Aliados com o primeiro título. O primeiro passo, como ele diz. Os caminhos cruzaram-se no momento certo. O FC Porto foi o clube certo para Farioli e Farioli foi a pessoa certa para assumir a responsabilidade.
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