MAIO 2026 REVISTA DRAGÕES
títulos, porque o futebol nunca garante nada, mas a certeza de que o FC Porto voltava a reconhecer-se ao espelho. Quando lhe falam de“ rock and roll”, Farioli não se deixa seduzir pelo rótulo. Desmonta a imagem e leva-a para o relvado. Mais do que ruído ou vertigem, trata-se de abordagem, energia e disponibilidade para correr nos momentos em que o corpo começa a negociar com a cabeça.“ Abordámos todos os jogos com um espírito combativo e, nos momentos de cansaço, lutámos ainda mais.” Alguns jogos foram mais brilhantes, outros menos vistosos, mas a consistência emocional manteve-se. Nem sempre o FC Porto foi cintilante, mas foi quase sempre reconhecível.
O EGO NÃO JOGA Farioli é um treinador de ideias, mas não é prisioneiro da estética. Gosta de controlar tudo o que é possível controlar, fala de“ entropia” e“ neguentropia”, de caos e vontade de ordem, de linguagem comum, de compreensão coletiva. Ao mesmo tempo, sabe que a obrigação de ganhar domestica qualquer vaidade autoral.“ Quando comecei era um treinador que queria fazer as coisas de forma diferente”, admite. Mas a passagem por clubes grandes, obrigados a ganhar sempre, ensinou-lhe que o ego do treinador não pode ficar acima do resultado da equipa.“ Ouço o que dizem, mas mantenho-me fiel ao que sou e ao meu plano, não mudo de ideias cada vez que alguém me critica.” Mais do que uma resposta, estava ali uma chave de leitura para a época. Farioli aceitou a crítica, não a ignorou, mas também não lhe entregou o volante.
A equipa foi acusada de ser previsível, por vezes pouco brilhante, mas o treinador prefere olhar para o contexto inteiro. Uma temporada de 53 jogos, com pouco tempo para treinar, competições diferentes, viagens, lesões graves, gestão permanente de energia e a necessidade de mudar oito, nove ou dez jogadores de um jogo para outro sem perder a identidade. Sem uma linguagem comum, defende, isso teria sido impossível. Sem jogadores disponíveis para esquecer o ego em favor do grupo, também.“ Se formos sortudos e tivermos um grupo de homens que entendem a importância de reduzir o ego pelo bem da equipa, então estamos num patamar em que podemos competir para ganhar e ter sucesso.” O campeonato confirma essa arquitetura. A primeira volta foi quase perfeita, com 49 pontos em 51 possíveis, e deu ao FC Porto o impulso que a época precisava. Depois vieram as lesões, o desgaste, as competições em simultâneo, os jogos decididos no limite, os momentos em que a equipa teve de vencer mais com nervo do que com perfume. Farioli não esconde o sabor amargo de não ter chegado mais longe na Liga Europa e na Taça de Portugal. Na Europa, recorda o autogolo, a expulsão aos sete minutos e uma eliminatória que, na sua leitura, podia ter caído para o outro lado. Na Taça, fala de dois jogos em que a equipa merecia mais. Mas o balanço não permite dramatismos: o FC Porto voltou a ser campeão nacional, alcançou 88 pontos e fez da liga o eixo de uma época de recuperação profunda. O treinador sabe que os jogos grandes ficam mais tempo na memória e aceita o peso emocional dos clássicos. Alvalade ajudou a confirmar que o caminho estava certo, o clássico no Dragão, depois do tropeção com o Casa Pia, testou a coragem da equipa e a Luz trouxe outro capítulo de exigência máxima. Mas Farioli gosta de lembrar os jogos que não entram no álbum principal com a mesma facilidade e que, no fim, também decidem campeonatos. Moreira de Cónegos, com o golo de Deniz Gül. O Nacional, com o golo de Jan Bednarek e uma grande defesa de Diogo Costa. A vitória em Guimarães. Esses pontos menos cinematográficos, espalhados pelo calendário, foram afinal parafusos essenciais da máquina. No último dia, percebe-se sempre melhor o peso das noites que pareciam apenas mais uma noite. A força defensiva é outro retrato do método. O FC Porto terminou como a melhor defesa da liga e Farioli fechou a terceira época consecutiva, depois de Nice e Ajax, com a defesa menos batida do campeonato que disputou. Mas, quando fala disso, não entrega o mérito apenas aos centrais ou ao guarda-redes. Diogo Costa, Jan Bednarek, Jakub Kiwior e Thiago Silva ajudam, claro, só que o treinador insiste nos avançados, nos médios, nos sacrifícios invisíveis de quem corre para trás quando a jogada já deixou de prometer aplauso. A imagem que escolhe é quase selvagem: contra o Santa Clara, no último jogo em casa, a equipa perdeu a posse e viu“ 11 animais a correr atrás da bola” para proteger o resultado. Não sabe se isso é a chave para vencer, mas tem a certeza de que é a chave para competir.
PORTO INTEIRO Depois veio a festa. E a festa, para Farioli, foi mais do que celebração, foi a prova
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