ESPECIAL CAMPEÕES
MAIO 2026 REVISTA DRAGÕES
A história começou antes do primeiro treino, antes do primeiro onze, antes da primeira vitória. Começou numa conversa. Francesco Farioli lembra-a ainda capaz de reconstituir a temperatura da sala, o ritmo das palavras e a energia que passou de um lado para o outro da mesa. André Villas-Boas falou-lhe do FC Porto, do que o clube significava para ele, da urgência de devolver uma equipa e uma cidade ao lugar onde ambos se reconhecem melhor: o da conquista. Farioli ouviu, ligou pontos, percebeu a paixão, sentiu o desejo de fazer algo especial e, enquanto o presidente falava, só esperava pela pergunta que acabaria por chegar. Queria ser treinador do FC Porto. A negociação foi rápida,“ ficou tudo resolvido em poucos dias”, mas a decisão, percebe-se agora, já vinha carregada de mais do que papelada. Havia ali uma espécie de pacto inicial entre duas vontades. O presidente procurava um treinador capaz de pegar numa equipa ferida e reordená-la por dentro; o treinador encontrava um clube que lhe oferecia escala, exigência, memória e uma fome compatível com a dele.“ Eu e o presidente estamos muito alinhados”, diria mais tarde, já depois do título conquistado, sublinhando uma ligação rara:“ Nunca tive este apoio nem me senti tão compreendido noutro clube.” Noutra entrevista, confrontado com o futuro, foi ainda mais direto: sair agora não fazia parte do vocabulário. O FC Porto, explicou, era onde estava e onde queria estar. A jornada, afinal, ainda só tinha dado o primeiro passo.
A PÁGINA IMPERFEITA Esse primeiro passo, porém, não foi limpo. Farioli recusa a fantasia da página em branco. O futebol gosta muito dessa imagem, mas o treinador italiano prefere outra, menos bonita e mais verdadeira – quando se vira uma página, ficam sempre marcas da anterior. Ao chegar ao Olival, não encontrou apenas um plantel para treinar, encontrou uma época anterior para purgar, uma ferida para compreender, uma urgência para organizar.“ A partir do momento em que assinei por este clube herdei tudo, nomeadamente o sofrimento da época anterior”, recorda. E talvez tenha sido aí que o grupo começou a nascer. Não numa palestra motivacional, nem numa ideia tática desenhada no quadro, mas numa dor partilhada.“ Começámos todos com a mesma dor e foi isso que criou laços entre nós.” Nos primeiros dias, mais do que construir, foi preciso limpar. Tirar peso às pernas, mas também à cabeça, fazer com que os jogadores voltassem a acreditar, que o balneário recuperasse respiração, que o Olival deixasse de ser apenas o lugar onde se treinava para voltar a ser o sítio onde se preparavam conquistas. A Áustria, na memória do treinador, foi o rastilho. Não por ter oferecido qualquer fórmula secreta, mas por ter criado isolamento, tempo, proximidade. Foi ali que a equipa técnica e os jogadores começaram a escrever“ histórias novas em cima de uma página que não era perfeita”. Dia após dia, a escrita tornou-se mais fluente. A época, vista agora de longe, parece um livro fechado com a última frase no sítio certo. Francesco até sorri quando desmonta a mitologia dos segredos.“ Às vezes podem pensar que o segredo é escolher o onze certo, mas se calhar o segredo foi escolher a canção certa para apresentar a equipa técnica aos jogadores.” A frase tem graça, mas não é apenas graça, diz muito sobre uma liderança que não se limitou a impor uma ideia e preferiu criar uma língua comum. O treinador trouxe uma equipa técnica vasta, porque sabia que o tempo seria curto e que o impacto tinha de ser imediato, mas depressa percebeu que no FC Porto a velocidade só seria possível se a porta estivesse aberta. Estava.“ Aqui encontrámos uma porta aberta.” Lucho González, André Castro, Lino Godinho, Dave Vos, Felipe Sánchez, Callum Walsh, Iñaki Ulloa, Diogo Almeida e todos os outros foram deixando de caber em categorias de origem.“ Depois de uma semana já não sabíamos quem era quem, quem eram os adjuntos trazidos pelo treinador e quem eram os adjuntos do clube.” A fronteira dissolveu-se, ficou uma equipa técnica. A do FC Porto. A mesma lógica atravessou o Olival inteiro. Farioli fala dos jogadores, naturalmente, mas também do team manager, dos técnicos de equipamentos, das senhoras da cozinha, de quem trata da relva, de todos os rostos mais ou menos visíveis que empurraram a época na direção certa.“ Aqui somos todos a equipa técnica do FC Porto.” A frase parece simples, mas contém uma visão de clube. Para Farioli, a coesão não podia limitar-se ao relvado, tinha de chegar aos corredores, aos departamentos, às rotinas discretas que nunca aparecem na ficha de jogo. O título também se foi fazendo aí, na soma de pequenos gestos, no sorriso de quem recebe, na forma como os jogadores abraçam quem trabalha para eles, nessa comunidade diária que transforma uma instalação desportiva num organismo vivo.“ Sinto-me muito orgulhoso por ser uma pequena peça deste grande puzzle”, resume.
A BANDEIRA DO CAPITÃO A temporada não se fez apenas de método e reconstrução, fez-se também de perda. A morte de Jorge Costa abriu uma cicatriz que não cabia em nenhuma planificação. Farioli recorda o dia 5 de agosto como um momento dramático, daqueles para os quais nenhum curso de treinador prepara ninguém. Estava com o presidente, com Tiago Madureira e com Diogo Costa, a tentar perceber o que acontecia e como reagir. Não havia manual, não havia resposta perfeita. Só havia o FC Porto, o grupo e a necessidade de responder como Jorge Costa responderia.“ Nesse momento descobrimos a energia necessária para reagir como o Jorge quereria, como um grupo e como uma equipa.” Essa presença tornou-se uma espécie de bússola emocional. Farioli teve pouco tempo com Jorge Costa, mas tempo suficiente para perceber a densidade da sua figura e o que ela transmitia ao balneário.“ O Jorge esteve sempre connosco. Nos momentos difíceis olhei muitas vezes para a bandeira dele.” A certo ponto, recordou até uma frase deixada pelo capitão de Sevilha e Gelsenkirchen depois do jogo com o Atlético de Madrid:“ Somos de novo uma equipa.” Poucas palavras, peso enorme. Pode ter sido essa a confirmação íntima de que o caminho estava certo. Não a garantia de
Farioli teve pouco tempo com Jorge Costa, mas tempo suficiente para perceber a densidade da sua figura e o que ela transmitia ao balneário.“ O Jorge esteve sempre connosco. nos momentos difíceis olhei muitas vezes para a bandeira dele.”
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