CORAÇÃO DE DRAGÃO
ABRIL 2026 REVISTA DRAGÕES
Em cima: O primeiro golo da noite teve dedicatória. Samu marcou ao Gil Vicente e, com a cumplicidade de Borja Sainz, desenhou um“ L” para Luísa no momento em que o futebol soube exatamente quem devia abraçar.
Em baixo: No Hospital de São João, Francisca( à esquerda) ofereceu ao treinador muito mais do que um encontro. Ofereceu-lhe um poema que Farioli haveria de guardar e partilhar com o grupo, impressionado pela força daquelas palavras.
outro pormenor que ajuda a perceber a dimensão afetiva desta ligação: Thiago Silva convidou Luísa para entrar com a equipa, e ela continua à espera desse momento. A frase fica a pairar com uma ternura que não pede exploração, basta imaginá-la. Um convite destes, para quem vive no meio de tratamentos e incerteza, não vale apenas como promessa feliz, vale como horizonte. A entrega do Prémio de Responsabilidade Social veio reconhecer esse percurso. Paulo de Mariz Rozeira, diretor executivo da Liga Portugal, enquadrou a distinção numa relação antiga entre os Dragões e este tipo de intervenção, lembrando que“ a responsabilidade social e o FC Porto estão de mãos dadas há muitos anos”. O dado tem peso institucional, mas o mais interessante foi o resto. Ao sublinhar que o clube“ até já partilha” estes prémios com quem ajuda a dar-lhes sentido, o dirigente acabou por resumir sem querer aquilo que torna esta história diferente. O prémio foi para a Fundação FC Porto, mas no Estádio do Dragão ninguém tinha dúvidas de que o centro emocional da cerimónia estava na Luísa. Do lado do clube, Tiago Gouveia evitou a armadilha do autoelogio.“ O maior reconhecimento é olhar para a Luísa e ver a alegria dela”, disse o diretor de marketing. O tom importa, porque em textos deste género a fronteira entre a comoção legítima e a autopromoção é muito ténue e o FC Porto acertou quando recusou transformar o prémio em ponto de chegada. A distinção conta, naturalmente, mas o discurso do clube colocou-a no sítio certo, abaixo da utilidade real dos gestos, abaixo do efeito concreto que têm na vida de quem os recebe, abaixo do sorriso de uma miúda que continua à espera de entrar em campo com a equipa. Talvez seja essa a medida mais justa. O prémio existe, os elogios existem, o reconhecimento público existe, mas nada disso explica por inteiro a força da história. O que a explica é a viagem de uma frase. Nasceu na intimidade de uma luta dura, ganhou voz no hospital, passou pelo Olival, entrou no Dragão, foi parar ao festejo de um golo e regressou, por fim, à pessoa que a tinha criado. Pelo meio, obrigou um clube inteiro a lembrar-se de algo essencial: a grandeza não se mede apenas nos troféus que se levantam, mede-se também na forma como se olha para quem precisa de força e se decide não virar a cara. Luísa escreveu que cair faz parte e que levantar é a escolha. O FC Porto não se limitou a aplaudir a frase e fez caminho com ela. E foi por isso que, desta vez, um prémio não premiou apenas uma ação, premiou a capacidade e a disponibilidade para ouvir, premiou uma ligação e uma forma de estar que devolveu ao futebol alguma da sua humanidade mais limpa.
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