Dragões #473 Abr 2026 | Página 50

CORAÇÃO DE DRAGÃO
ABRIL 2026 REVISTA DRAGÕES ao balneário uma lição de resistência formulada sem pose, sem procura de efeito e sem a retórica postiça com que tantas vezes se disfarça a emoção.“ Cair faz parte, levantar é a escolha” não soou a frase feita. Soou a regra de sobrevivência e foi por isso que ficou. José Santiago, o pai, contou mais tarde que a filha recebeu tudo isso como“ uma força extra para tentar superar as dificuldades”. A frase ajuda a recentrar o essencial. Em torno destas iniciativas existe sempre o risco de se escrever de mais sobre a boa vontade de quem vai e de menos sobre a necessidade de quem recebe. Neste caso, o equilíbrio impôsse sozinho. O FC Porto esteve presente, mas não ocupou o centro das atenções de forma indevida. Percebeu que, naquela história, a força vinha do outro lado. O clube limitou-se a fazer o que deve ser feito quando a vida lhe bate à porta com esta dureza: ouviu, aproximouse e respondeu com humanidade. A resposta ganhou um novo capítulo na semana seguinte. À entrada para o jogo com o Gil Vicente, no Estádio do Dragão, os futebolistas que saíam do autocarro encontraram do outro lado do ecrã os pacientes da ala pediátrica do Hospital de São João. A videochamada aproximou dois universos que tantas vezes se observam de muito longe: o ruído do estádio e o silêncio hospitalar, a coreografia do espetáculo e a espera dura de quem conta o tempo por análises, tratamentos e notícias. Não foi um gesto ornamental, foi uma forma simples e certeira de dizer que a ligação continuava viva. Depois veio o momento mais visível, aquele que qualquer adepto entende num segundo. Samu marcou o primeiro golo da noite e celebrou com o festejo pedido por Luísa. O futebol tem esta particularidade rara, consegue transformar um pormenor em linguagem comum, um gesto combinado, feito no relvado, com milhares nas bancadas e muitos mais a ver pela televisão, pode dizer mais do que uma campanha inteira quando é carregado de sentido. Naquele festejo não estava apenas uma homenagem, estava a confirmação pública de que a história já não pertencia só ao hospital nem apenas ao balneário. Tinha entrado no clube por completo. O próprio José Santiago tocou nesse tema quando falou da alegria da filha.“ Também foi ela que escolheu o festejo”, lembrou, antes de acrescentar
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