ENTRE LINHAS
ABRIL 2026 REVISTA DRAGÕES
ESTORIL 1:3 FC PORTO
No Estoril, o FC Porto voltou a fazer o que as equipas verdadeiramente adultas fazem nesta altura da época: recusou o folclore e tratou do essencial. Venceu por 3-1, passou mais um teste de alta exigência e conservou intacta a geometria do topo, como quem arruma a classificação sem espalhafato, mas com autoridade. A cinco jornadas do fim, os Dragões seguiam com 76 pontos, mais cinco do que o Sporting, que tinha um jogo em atraso, e mais sete do que o Benfica, mesmo antes de um dérbi lisboeta que prometia agitação bastante para alimentar o país inteiro. Francesco Farioli falou de“ ritmo, raiva e espírito certo”, e a fórmula serve. O FC Porto jogou com identidade, maturidade e uma espécie de urgência controlada, que é talvez uma das formas mais refinadas de poder. Houve intensidade, mas não precipitação, houve
ambição, mas não ansiedade. Houve, sobretudo, uma equipa que percebeu cedo onde estava a superioridade e decidiu instalá-la no jogo sem pedir licença. Pepê abriu o caminho, Xeka ajudou a alargar a vantagem ao desviar para a própria baliza e Victor Froholdt tratou de dar ao marcador uma expressão ainda mais justa para o que se passava em campo. O 3-1 final acabou por parecer exato no resultado, mas curto naquilo que a superioridade portista produziu. Victor Froholdt voltou a atravessar o jogo como se conhecesse atalhos invisíveis. Encheu o campo, marcou, pressionou, deu continuidade ao que a equipa precisava em cada momento e acabou por ser distinguido como melhor em campo, embora o mais interessante talvez tenha vindo depois, quando decidiu entregar simbolicamente esse foco a Pepê. Fê-lo com a elegância rara de quem percebe que, no futebol, também há talentos que passam demasiado tempo sujeitos à miopia dos julgamentos apressados. Pepê agradeceu da melhor forma, voltando ao golo e ao sorriso, como se ambos tivessem apenas esperado pelo instante certo para regressar ao mesmo lugar. No fim, Farioli também não fingiu surpresa diante do que vai vendo. Quando fala de imagens“ muito claras” e de“ uma velha história bem conhecida”, não está a dramatizar. Está apenas a constatar que, no futebol português, há enredos que insistem em reaparecer com figurinos diferentes e a mesma falta de subtileza. O mérito do FC Porto, neste contexto, esteve precisamente em não permitir que o ruído lhe sequestrasse a noite. Jogou acima dele, venceu acima dele e seguiu em frente sem lhe oferecer o privilégio de mudar a hierarquia do jogo.
O primeiro golpe saiu do pé direito de Pepê, mas o aviso foi coletivo: o FC Porto tinha ido ao Estoril para mandar.
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