ENTRE LINHAS
ABRIL 2026 REVISTA DRAGÕES
Gabri Veiga descobriu o espaço, William Gomes encontrou a baliza. O empate é que insistiu em estragar a lógica.
FC PORTO 1:1 FOREST
O empate com o Nottingham Forest deixou no Dragão uma sensação ingrata, daquelas que o futebol sabe fabricar com requinte quando decide ser injusto sem precisar de exagerar. O FC Porto atacou mais, rematou mais, enquadrou mais e quis mais. Fez 25 ataques contra 14, somou 16 remates contra 6 e acertou oito vezes na baliza, quando o adversário só o conseguiu fazer em duas situações. No fim, porém, o resultado teve o desplante de fingir que tudo isso valia exatamente o mesmo. Francesco Farioli resumiu a noite com a frase certa:“ Só houve uma equipa que fez tudo para ganhar, nós”. E houve, de facto. O problema é que, a este nível, fazer quase tudo continua a incluir um detalhe aborrecido chamado marcar. O FC Porto criou o suficiente para sair do primeiro assalto em vantagem clara, mas faltoulhe aquilo a que o treinador chamou“ instinto matador”. Em vez disso, o jogo foi ficando aberto, quase por delicadeza.
O Forest agradeceu. Não tanto por ter mostrado argumentos de quem manda numa eliminatória, mas porque encontrou no empate uma forma bastante confortável de sobreviver ao que o FC Porto lhe foi impondo. Houve equipas que já saíram do Dragão vergadas por menos, mas esta saiu de pé, amparada por um autogolo de Martim Fernandes e pela generosidade portista na hora de transformar superioridade em estrago. Às vezes o futebol tem este humor seco e irritante, castiga quem produz e ampara quem resiste. Ainda assim, a noite não deixou apenas frustração, deixou também sinais claros de que a eliminatória estava longe de cair para o lado inglês por decreto. William Gomes, autor do golo portista, falou de uma equipa“ convicta” de que poderia ir lá ganhar e passar. Bednarek preferiu sublinhar a competência, a produção ofensiva e a falta de convicção no momento de decidir. Rosario foi ainda mais direto: à hora do autogolo, o FC Porto já podia estar a ganhar por 3-0. E talvez seja essa a frase que melhor explica o empate, não porque exagere, mas porque dói precisamente por parecer verdade. Antes do apito inicial, o Dragão teve o bom gosto de aplaudir Vítor Pereira, bicampeão português e duplo vencedor da Supertaça. A homenagem foi merecida. Também por isso, talvez tenha sido inevitável olhar para esta primeira mão e pensar que o problema do FC Porto nunca esteve no controlo, na atitude ou na coragem, mas no golpe final. Nada ficou perdido, evidentemente. Ficou, isso sim, tudo adiado para Nottingham. E o City Ground ia pedir menos estética de volume e mais precisão de bisturi, porque nos quartos de final da Liga Europa já não basta ser melhor durante muito tempo, convém parecêlo no marcador, que continua a ser o único cronista sem sentido de humor.
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