Dragões #473 Abr 2026 | Page 21

ENTRE LINHAS
ABRIL 2026 REVISTA DRAGÕES
Seko Fofana fez a parte difícil com uma naturalidade desconcertante, mas o futebol encarregou-se de estragar a fotografia.
FC PORTO 2:2 FAMALICÃO
O FC Porto chegou a tocar a vitória com as duas mãos, mas o futebol tem esta crueldade fina de, por vezes, retirar no último instante aquilo que parecia já acomodado no lugar certo. O empate com o Famalicão, selado aos 90’+ 9 depois de os portistas terem estado em vantagem por duas vezes, deixou uma sensação de obra inacabada. Alberto Costa abriu o marcador aos 35 minutos, Seko Fofana devolveu a dianteira já nos descontos com uma execução de grande recorte, mas nem isso bastou para fechar a noite. Talvez por isso o resultado tenha sabido tanto a interrupção. Não porque faltassem sinais de vontade, nem porque a equipa tenha deixado de procurar o jogo, mas porque nunca conseguiu instalar de forma contínua a autoridade que costuma transformar vantagem em sentença. Alberto teve o mérito de abrir caminho e de dar expressão prática a uma superioridade que o FC Porto queria consolidar; Fofana ofereceu ao jogo o momento de maior fulgor, com um golo daqueles que parecem resolver mais do que um lance, como se o talento individual pudesse, por um instante, pôr ordem definitiva na noite. Não pôde. E foi aí que o empate ganhou peso, precisamente por surgir depois de um gesto que tinha tudo para ficar como assinatura maior da jornada. Francesco Farioli preferiu a lucidez ao álibi e reconheceu que a exibição ficou abaixo do nível habitual, sublinhando a falta de velocidade, eficácia e agressividade. Fez bem. Não para expor em demasia uma equipa que continuava na frente, então com mais cinco pontos e mais um jogo do que o Sporting, mas para lembrar que abril já não tolera dispersões nem vitórias apenas pressentidas. Há fases da época em que o essencial não é apenas construir vantagem, é saber protegê-la até ao fim. Ainda assim, convém não trocar um empate doloroso por um juízo apressado. O campeonato continuava a colocar o FC Porto na dianteira e a equipa já tinha mostrado, noutras noites, capacidade para responder quando o cenário lhe pede firmeza. Talvez seja esse o verdadeiro ponto de contacto entre a frustração do resultado e a necessidade de transformar a desilusão em densidade competitiva. O golo de Alberto merecia tranquilidade, o de Fofana merecia moldura.
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