Dragões #472 Mar 2026 | Page 45

GOLO REI
MARÇO 2026 REVISTA DRAGÕES
Na Corunha, a meiafinal resolveu-se da marca dos 11 metros: falta sobre Deco, penálti de Derlei, bilhete carimbado para Gelsenkirchen. Este abraço conta o resto.
“ A minha cumplicidade com ele [ Deco ] era evidente, e quando se transporta isso para dentro das quatro linhas, tudo se torna mais fácil.” O lance não parece fruto de um acaso feliz, mas de uma ideia repetida até ganhar a aparência de instinto.“ A jogada que deu o segundo golo é trabalhada, vem dos treinos. Ali, nem era preciso falar.”
Maniche teve peso semelhante, ainda que de outra natureza. Foi menos choque e mais confirmação. Se o primeiro fez acreditar que era possível, o segundo reforçou a convicção de que podia mesmo acontecer.“ Foi um ponto crucial para acreditarmos ainda mais que poderíamos chegar à final.” E o golo não fechou apenas a eliminatória, abriu uma estrada. A partir dali, o sonho deixou de viver apenas na ambição íntima do balneário e começou a impor-se como possibilidade séria, visível, quase palpável. Há outros golos que o antigo camisola 18 guarda com orgulho. O da Lazio, nas Antas, no caminho para Sevilha e para a vitória na Taça UEFA de 2003, ou os dois na Pedreira, frente ao Braga, semelhantes entre si e marcados com a mesma elegância de passada larga e remate certeiro.“ São golos bonitos, ficam para a história.” Mas, na hora de eleger um só, o critério aperta-se.“ Tentei escolher um golo que fosse importante e, ao mesmo tempo, bonito.” É isso que faz um Golo Rei: a capacidade rara de juntar forma e consequência, estética e peso. Sete semanas depois, em Gelsenkirchen, o FC Porto pisaria o topo da Europa ao vencer o Mónaco na final da Champions, frente a uma equipa que tinha deixado pelo caminho o Real Madrid e o Chelsea. Olhando para trás, percebe-se melhor a dimensão daquele instante em Lyon. O remate de Maniche não foi apenas um grande golo num grande palco. Foi um sinal. Uma confirmação dada com o pé direito de que aquela equipa, que se sabia forte por dentro, já começava também a ser reconhecida por fora. No Stade de Gerland, o sonho ganhou uma estrada e Maniche ajudou a abri-la.
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