Dragões #472 Mar 2026 | Page 44

GOLO REI
MARÇO 2026 REVISTA DRAGÕES
Foi aqui, no Dragão, entre passo largo e bola colada ao pé, que os quartos de final da Liga dos Campeões começaram a pintarse de azul e branco.
do tempo certo de cada movimento. Nasce de uma equipa que não atacava por impulso, atacava por convicção. É também por isso que a memória de Maniche insiste no entendimento com Deco.“ Havia um conhecimento mútuo. A minha cumplicidade com ele era evidente, e quando se transporta isso para dentro das quatro linhas, tudo se torna mais fácil.” O lance não parece fruto de um acaso feliz, mas de uma ideia repetida até ganhar a aparência de instinto.“ A jogada que deu o segundo golo é trabalhada, vem dos treinos. Ali, nem era preciso falar.” No meio-campo de Mourinho, a liberdade não existia sem contrapeso. Maniche explica-o com a simplicidade de quem conhecia o mecanismo por dentro: se aparecia em zonas de finalização,“ o Deco tinha de recuar um pouco mais para haver o tal equilíbrio de equipa que fazia toda a diferença”. Naquele lance, porém, subiram os dois, o que diz muito sobre a confiança instalada na estrutura e nos colegas. Não era imprudência, era apenas a certeza de que a equipa tinha rede suficiente para permitir o voo. Talvez por isso este golo resista tão bem ao tempo. Porque é bonito, porque revela uma equipa inteira, porque mostra o talento individual sem o desligar da arquitetura coletiva e porque surge no ponto exato em que uma
“ O Lyon tinha jogadores incríveis”, lembra o internacional português, antes de elencar nomes como Juninho,“ um dos melhores marcadores de livres da história”, Coupet, que reencontraria mais tarde no Atlético de Madrid, e Essien, pivô defensivo destinado à elite absoluta do futebol europeu. eliminatória desta dimensão pede uma assinatura.“ Foi numa fase crucial do jogo, que estava a ser equilibrado.” A frase de Maniche é sóbria, sem adornos, mas lá dentro cabe quase tudo: a tensão, a oportunidade e o golpe. O peso do adversário reforça ainda mais a escolha.“ O Lyon tinha jogadores incríveis”, lembra o internacional português, antes de elencar nomes como Juninho,“ um dos melhores marcadores de livres da história”, Coupet, que reencontraria mais tarde no Atlético de Madrid, e Essien, pivô defensivo destinado à elite absoluta do futebol europeu.“ Era extremamente difícil ganhar a esta equipa, porque era uma equipa muito compacta e extremamente forte fisicamente.” O FC Porto não estava perante um acaso europeu, estava perante uma potência em afirmação, e, ainda assim, saiu de França de pé, intacto e apurado. Não como favorito, mas como intruso cada vez mais impossível de ignorar.“ Não éramos candidatos, éramos outsiders, mas queríamos sonhar.” Poucas ideias resumem tão bem a campanha de 2003 / 04. Em Old Trafford, o golo de Costinha foi o primeiro abalo, o instante em que o FC Porto deixou de sonhar sozinho e obrigou a Europa a levá-lo a sério. Em Lyon, o remate de
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