FUTEBOL
FEVEREIRO DEZEMBRO 2026 2025 REVISTA DRAGÕES
Um planeta na palma da mão
O Dragão recebeu o troféu que todas as seleções sonham levantar e o Porto fez o que faz melhor, transformando um objeto em causa. Entre aplausos e memórias, André Villas-Boas sublinhou o estatuto singular do FC Porto, Roberto Carlos trouxe a emoção de campeão e a cidade devolveu o recado com a convicção de sempre: aqui o futebol não se explica, sente-se.
36,8 centímetros
faixas de malaquite
6,175 kg ouro de
18 quilates
O troféu hoje atribuído ao campeão do mundo de seleções só entrou em cena em 1974, mas já com a responsabilidade de substituir uma lenda. Antes disso, e durante quase quatro décadas, o Mundial consagrava os vencedores com a Taça Jules Rimet, uma figura dourada assente numa base de lápis-lazúli, elegante e frágil como um objeto de museu, e mais precioso do que imponente. A história desse símbolo recupera o perfume da película com o grão de um filme antigo: a“ copa”, atribuída em definitivo ao Brasil em 1970, quando o“ escrete” chegou ao terceiro título, acabou por desaparecer para sempre após o roubo de 1983. A partir daí, a FIFA teve de reinventar o seu ícone maior. Nasceu então a taça que hoje reconhecemos ao primeiro olhar. Entre dezenas de propostas, a ideia vencedora foi a de Silvio Gazzaniga, produzida em Itália, e o resultado foi um pequeno planeta com 36,8 centímetros de altura, 6,175 quilos de peso, ouro de 18 quilates e uma base marcada por faixas de malaquite, uma pedra verde semipreciosa. O desenho mostra duas figuras a erguer o globo, como se o futebol pudesse levantar o mundo sem o deixar cair. Há também um protocolo quase cerimonial em torno daquele objeto venerado: podemos aproximarnos, podemos fotografá-lo, mas só alguns o seguram com a solenidade de quem sabe o que aquilo representa.
YOKOHAMA É UM DESSES LOCAIS RAROS EM QUE A HISTÓRIA NÃO PASSA DE RASPÃO. E QUANDO O FUTEBOL DECIDE VOLTAR ALI, VOLTA SEMPRE COM A MESMA PERGUNTA, DITA DE MANEIRAS DIFERENTES: QUEM É QUE TEM CORAGEM PARA LEVANTAR O PLANETA INTEIRO A DUAS MÃOS?
É aqui que a presença de Roberto Carlos ganha densidade, porque, quando um símbolo assim chega a um estádio, não chega sozinho. Traz consigo a gravidade da história e, por vezes, quem já a viveu por dentro. Roberto Carlos regressou ao Estádio do Dragão a acompanhar o troféu do Mundial na digressão do FIFA World Cup Trophy Tour by Coca-Cola e confessou que ainda hoje fica“ emocionado ao levantar o troféu que todas as seleções querem ganhar”. Mais do que a pose, era o reflexo de um campeão de 2002 a tocar outra vez um objeto que continua a pesar mais do que metal. E 2002 é um ano que pesa. Aquele Brasil tinha cara de superequipa e alma de constelação: Cafu e Roberto Carlos nas autoestradas, Lúcio no centro da muralha e à frente o tridente Rivaldo-Ronaldo- Ronaldinho, mistura rara de impacto, improviso e crueldade técnica. O próprio Cafu, o capitão do penta, resumiu a ideia com uma frase tão direta que chega a
doer:“ Jogávamos para Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho”. E quando a final pediu assinatura, Ronaldo Nazário escreveu-a sem misericórdia – dois golos do“ Fenómeno” contra a Alemanha e o pentacampeonato fechado sem margem para discussão. Dois anos depois, a mesma relva voltou a ouvir a palavra“ mundo”, agora em versão clube e com outro troféu nas mãos. A 12 de dezembro de 2004, o FC Porto venceu o Once Caldas na Taça Intercontinental, também em Yokohama, no rebatizado Nissan Stadium. Outra final sem piedade para os nervos, outra noite decidida no detalhe, outro campeão a sair do mesmo túnel. No fundo, é isto que fazem os grandes troféus, novos ou antigos. Não guardam apenas nomes, guardam lugares. Yokohama é um desses locais raros em que a história não passa de raspão. E quando o futebol decide voltar ali, volta sempre com a mesma pergunta, dita de maneiras diferentes: quem é que tem coragem para levantar o planeta inteiro a duas mãos?
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