Dragões #471 Fev 2026 | Seite 49

FUTEBOL
FEVEREIRO DEZEMBRO 2026 2025 REVISTA DRAGÕES

O Dragão viu-o uma vez

A primeira vez de Roberto Carlos no Estádio do Dragão foi também a última. Setembro de 2008, Champions, 3-1 no marcador e dois cruzamentos a pedirem“ replay”: um que quase trai Helton, outro que quase dá o empate a Güiza. O resto é memória antiga, escrita nas Antas e no Bernabéu, de um lateral que nunca deixou de ter o jogo preso ao pé esquerdo.

Quando, em setembro de 2008, Roberto Carlos pisou o Estádio do Dragão pela primeira vez, já não trazia com ele aquele peso e brilho galáctico ao peito. Trazia“ apenas” o instinto do lateral que nunca deixou de acreditar que uma bola bem batida pode virar um estádio do avesso. Nessa noite de estreia do FC Porto na edição de 2008 / 09 da Liga dos Campeões, o jogo chegou a parecer resolvido demasiado cedo, depois de Lisandro López e Lucho González terem marcado logo aos 10 e aos 13 minutos, mas o Fenerbahçe acabaria por responder ainda antes da meia hora por Daniel Güiza, que deixou as bancadas com os nervos em franja até aos 90’+ 2, altura em que Lino fechou as contas da noite. Antes disso, dois momentos de Roberto Carlos pela esquerda pedem“ replay”. Primeiro, um daqueles lances em que o tempo faz uma pausa só para ver onde a bola vai cair, com o brasileiro a tirar um cruzamento tão tenso e traiçoeiro que quase engana Helton e aterra no topo da rede como um aviso. Depois, já perto do fim, volta a desenhar a mesma linha, agora com precisão cirúrgica, metendo a bola na testa de Güiza, solto ao segundo poste, e a resposta sai por um nada, um cabeceamento que passa ao lado e deixa a sensação de ocasião perdida. No meio disto, o FC Porto ainda encontra tempo e espaço para o golpe final num contra-ataque com passe de Cristian Săpunaru para o 3-1. No final, Roberto Carlos falou como quem conhece a casa por dentro, mesmo vindo de fora. Elogiou o FC Porto, disse-se fã do futebol português, confessou que seguia a liga“ todos os fins de semana”, e até escolheu o melhor em campo sem pestanejar:“ O Lucho. É a principal referência e o melhor jogador do Porto.” Havia ali respeito sem teatro, daqueles que não se ensaiam.“ Joga e faz jogar”, acrescentou, rendido ao talento do argentino. Mas aquele reencontro em setembro de 2008 tinha um longo passado escrito noutros palcos. Antes da estreia no Dragão, Roberto Carlos já tinha deixado marca no Estádio das Antas: em 1997, num 0-2 para o Real Madrid, foi dele um dos golos num jogo em que os“ merengues” chegaram a transmitir a sensação de jogar com mais espaço do que o relvado permitia. Dois anos depois, as Antas viram a outra face da história, com o FC Porto a derrubar o Real com bis de Mário Jardel e um autogolo de Emílio Peixe. Entre idas ao Santiago Bernabéu e regressos ao Porto, a coleção de duelos foi-se avolumando, com a UEFA a recordar, nessa mesma semana de 2008,

Dezembro de 2003, Estádio Santiago Bernabéu: Roberto Carlos e José Bosingwa disputam a bola num empate com sabor a ensaio geral. Cinco meses depois, o FC Porto conquistava a Liga dos Campeões em Gelsenkirchen.
Setembro de 2008: Lucho González celebra o segundo golo do FC Porto na única noite em que Roberto Carlos jogou no Estádio do Dragão. No final, o lateral brasileiro deixou um elogio ao médio argentino:“ Ele joga e faz jogar”.
que Roberto Carlos já tinha defrontado o FC Porto por sete vezes. No fundo, aquela noite de 2008 teve graça porque juntou, no mesmo relvado, o presente de um veterano ainda para as curvas e o passado de um jogador que já tinha atravessado a história portista em vários capítulos. E porque, mesmo com 3-1 no marcador, ficou a ideia incómoda e fascinante de que um lateral, se tiver um pé esquerdo assim, nunca está completamente fora do jogo.
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