Dragões #471 Fev 2026 | Page 41

História a tinta permanente
O estrangeiro com mais camisola
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FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES
Mas a coincidência tem graça e tem lógica. Há uma linha de continuidade no caminho do polaco, como se o guião já viesse sublinhado: antes de assinar pelo FC Porto, Oskar estreou-se na equipa principal do Jagiellonia Białystok em Amesterdão, frente ao Ajax treinado por Farioli. O treinador que o viu do outro lado do campo, em plena qualificação europeia, acabaria por lhe estender a mão, agora dentro do mesmo balneário. O contexto também ajuda a ler a aposta. Oskar chegou em janeiro, assinou até 2029 e foi blindado com uma cláusula de 60 milhões. Como é menor, o contrato respeita o máximo permitido para a idade, um pormenor que diz muito sobre o equilíbrio entre aposta e proteção. Recebeu a camisola 77 e foi apresentado como o elemento mais jovem do plantel principal.
É aqui que estes recordes ganham sentido, não como medalhas, mas como escolhas. No FC Porto, a precocidade não é um espetáculo de circo para fazer capas de jornal, mas uma ferramenta usada quando a equipa precisa de outro tipo de faísca. E foi isso que a equipa técnica procurou naquela tarde na Madeira, num onze que apresentou cinco alterações em relação ao empate com o Sporting. O segundo lugar leva-nos a março de 2006 e a um FC Porto-Paços de Ferreira no Estádio do Dragão. Anderson, ainda com 17 anos, entrou de início numa equipa que procurava músculo e aceleração no meio-campo. A idade diz-nos que era precoce e o jogo diz-nos que já era“ jogador”: foi titular e esteve envolvido no ritmo de uma vitória por 3-0. O terceiro degrau aponta para outubro de 2011 e para a Taça de Portugal, em
Sintra. Juan Manuel Iturbe foi titular na goleada do FC Porto ao Pêro Pinheiro, num daqueles encontros em que a diferença de patamar também serve para testar personalidade e responsabilidade, porque jogar de início é sempre mais do que entrar aos 80. Três nomes, três épocas e três contextos diferentes mantêm uma ideia em comum: a idade é um dado e não um argumento, e a única coisa que muda é a pergunta que o jogo faz ao treinador. Naquela tarde de 15 de fevereiro, a pergunta tinha a forma simples de um“ precisamos de ousadia” e a resposta saiu com um 77 nas costas. Os recordes de juventude são fotogénicos, mas não garantem nada, e o que estas páginas pretendem mostrar é só o instante em que o clube escolhe. Depois, o futebol faz o resto.

História a tinta permanente

Fábio Silva entrou no capítulo dos“ mais novos” sem pedir licença ao calendário. Aos 17 anos e dois meses, Sérgio Conceição ofereceu-lhe a titularidade como teste e o avançado português passou a ser o mais jovem de sempre a integrar o onze inicial do FC Porto em jogos oficiais: aconteceu a 25 de setembro de 2019, com o Santa Clara como adversário e em partida a contar para a fase de grupos da Taça da Liga que Diogo Leite resolveu. O recorde ganhou uma dimensão ainda maior quando, a 10 de novembro de 2019, no Estádio do Bessa, voltou a aparecer no onze, tornando-se também o titular mais jovem de sempre em jogos da liga, ultrapassando um registo antigo que pertencia a Serafim e resistia há quase seis décadas. Mas a precocidade de Fábio já tinha ido além da fotografia no onze. A 19 de outubro de 2019, em Vila Nova de Gaia, o avançado apontou o último dos cinco golos com que o FC Porto afastou o Coimbrões na terceira eliminatória da Taça de Portugal e tornou-se o mais jovem jogador a marcar de azul e branco, suplantando a marca de Rúben Neves, que persistia há mais de cinco anos. Aos 17 anos e três meses, idade com que muitos ainda estão a aprender a ser profissionais, Fábio Silva já escrevia história a tinta permanente.

O estrangeiro com mais camisola

Se o tema é tempo de casa, então o nome muda de faixa etária e ganha um peso granítico. Aloísio fez 474 jogos oficiais pelo FC Porto e continua a ser, por larga margem, o estrangeiro com mais participações de Dragão ao peito. Chegou em 1990, vindo do Barcelona de Johan Cruijff, o treinador que o tinha escolhido e que lhe colocou a braçadeira num gesto e momento históricos, fazendo do brasileiro de Pelotas o primeiro capitão negro do Barça. No Porto ficou 11 temporadas e tornou- se o terceiro jogador com mais partidas disputadas na história do clube, apenas atrás de João Pinto e Vítor Baía. A estreia oficial aconteceu a 7 de agosto de 1990, numa derrota na Amadora( 2-1), em jogo da primeira mão da Supertaça, a que os azuis e brancos dariam a volta nas Antas com uma vitória expressiva( 3-0). O palmarés acompanha a estatística: sete Ligas, cinco Taças de Portugal e sete Supertaças. E há ainda detalhes que ajudam a desenhar a personagem. Central de liderança tranquila, Aloísio foi escolhido pelos adeptos para integrar o“ Melhor Onze” de sempre do clube, garantindo presença permanente no Museu FC Porto. Em números mais finos, marcou 18 golos e viveu o lado mais clássico do calendário como poucos: defrontou o Sporting por 33 vezes e o Benfica em outras 33 ocasiões, reforçando um currículo de ferro para quem fez da serenidade uma forma de comando.
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