Dragões #471 Fev 2026 | Page 22

TEMA DE CAPA
FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES

Tudo pelo clube

Recusa rótulos e pede apenas que o recordem como é, simples, determinado e leal. O resto fez-se na relação com os adeptos.
Quando lhe pedem para imaginar o futuro, Cláudio não constrói uma personagem. Não pede estátua, nem rótulo, nem epíteto de ocasião. Diz que, no fundo, espera ser lembrado por aquilo que é. E aquilo que reivindica é simples, quase de balneário: alguém que“ sempre deu tudo pelo clube”, que“ sempre lutou ao máximo” e que procurou“ sempre dar o melhor, independentemente de tudo”. O resto vem por consequência, não por estratégia. Quer ser recordado como“ uma pessoa simples”. E, depois, deixa uma frase que vale o fecho de um capítulo inteiro, porque condensa trajetória e pertença numa linha só.“ Não nasci portista”, assume, enquanto transforma o facto em destino escolhido:“ Tenho a certeza de que neste momento sou portista e tenho a certeza de que vou morrer portista”. Para ele, a força dessa transformação não está numa troca de cachecóis, está na forma como foi recebido pelos adeptos.“ Eles acolheram-me como um deles”, diz Cláudio Ramos. E é aí que entra o lado mais íntimo da gratidão:“ Para mim, isso é muito gratificante”. E fecha com um pedido que é também a esperança de que o carinho se mantenha, aconteça o que acontecer no resto do caminho:“ Espero que eles continuem a gostar de mim, independentemente do lugar para aonde a minha carreira me possa levar”.

A ponte semanal

Aos 13 anos, Guimarães ficava a duas horas. A saudade encurtava-se com a rotina: sábado de jogo, domingo de autocarro e a certeza de voltar, nem que fosse“ para jantar e almoçar”.
Quando fala de Verónica, a esposa, Cláudio não a apresenta como alguém que“ apareceu” na vida a meio do caminho, mas como uma presença antiga, quase de álbum de família. Há até uma fotografia que serve de prova e de símbolo: ela, com três anos, num aniversário, um registo de infância que antecede qualquer ideia de namoro.“ Era a minha colega de turma desde a terceira classe”, conta, como quem diz que algumas histórias começam antes de terem nome. O namoro começou no oitavo ano, pouco antes de Cláudio partir para Guimarães. E ficou. Num momento em que a mudança de cidade podia ter cortado laços, houve dois fios a segurar o regresso constante:“ Ela e a minha mãe”. Não por drama, mas por necessidade. A distância e a solidão dos 13 anos não se anulavam com bravura, anulavamse com rotina, com presença, com uma espécie de ponte semanal. Mesmo instalado em Guimarães, Cláudio fazia da estrada um hábito.“ Praticamente todas as semanas” ia ao Touro, uma viagem de duas horas, muitas vezes encaixada a ferros no calendário do futebol. Nos juniores, os jogos ao sábado à tarde terminavam por volta das seis. A seguir vinha o relógio apertado. Chegar a casa por volta das nove, jantar depressa, e no domingo, já com a mala feita outra vez, apanhar o autocarro de regresso a Guimarães às três da tarde. A frase que resume esse vaivém é tão simples quanto reveladora:“ Ia praticamente jantar e almoçar ao Touro”. Ia para estar com a Verónica, com a família, com a mãe. E, nessa insistência, há também uma aprendizagem silenciosa sobre compromisso, antes mesmo de haver carreira.
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