Dragões #471 Fev 2026 | Page 21

TEMA DE CAPA
FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES

Gratidão em 360 graus

Entre Porto e Gaia, com a cidade aberta à frente, Cláudio Ramos revisita o caminho da luta e da resiliência, assume-se“ beirão portuense” e explica por que razão o FC Porto é mais do que futebol: é cultura, gente e identidade.
Lá em cima, no topo da Super Bock Arena, a cidade abre-se como um mapa vivo. Porto de um lado, Gaia do outro, duas margens que são uma só respiração. É neste cenário, com a vista a fazer de enquadramento e a memória a fazer de guião, que Cláudio Ramos começa pelo fim: o presente. E o presente, para ele, ainda sabe a improvável. Aliás, quando confrontado com a alucinante viagem ao passado, do início da carreira aos anos em Tondela, e a possibilidade de, por algum momento, se ter imaginado ali, há tanto tempo a representar o FC Porto, a resposta sai limpa:“ Sendo sincero, acho que não”. O sonho de ser profissional cumpriu-se, mas a chegada a um clube desta dimensão nunca foi uma certeza, apenas ambição. Agora, o sentimento de pertença não é apenas desportivo. É cultural. É quase geográfico. Cláudio saiu cedo, aos 13 anos, para Guimarães, e esse salto moldou-lhe uma identificação que hoje assume sem hesitar:“ Identifico-me muito com a região Norte e com as pessoas do Norte”. E quando fala da cidade, fala inevitavelmente do clube, como se um explicasse o outro.“ Falar da cidade do Porto e não falar do FC Porto é impossível”, diz, porque acredita que o clube“ representa a
identidade da cidade”. Mais do que um símbolo, é, para ele,“ o maior representante da cultura portuense”. E explica porquê:“ Representa as pessoas”, no modo como traduz uma ideia de Porto que é trabalho, determinação, nervo e resistência.“ Pessoas trabalhadoras, muito determinadas, com uma resiliência enorme”. Ao olhar de Cláudio Ramos, a mística tem tanto de bancada como de rua. Talvez por isso a adaptação tenha sido mais natural do que muitos imaginariam. Ele próprio reconhece que já trazia com ele uma parte desses traços antes de chegar: a luta, a dureza do caminho, a capacidade de aguentar quando o contexto não é favorável.“ Sou uma pessoa que lutou muito para chegar aqui, sofri muito ao longo da minha carreira”, admite, lembrando que nem tudo foi linear, nem tudo foi“ um mar de rosas”. Até em Tondela, onde muitos veem apenas a sequência de jogos e a estabilidade final, houve anos de incerteza e dificuldade:“ Nem sempre fui titular, tive anos de muita luta”. A base de tudo, garante, foi a persistência:“ Sempre fui resiliente, nunca desisti, acreditei muito em mim”. E é por isso, conclui, que está aqui agora, a olhar a cidade por cima, com o peso bom de quem sabe o que custou.
Vive do outro lado da ponte, em Vila Nova de Gaia, e isso dá-lhe uma rotina mais simples para o Olival, sobretudo de manhã. A vida familiar também se desenha mais por ali, onde os filhos estudam. E é nos lugares concretos, pequenos e repetidos, que a cidade se torna casa. Cláudio não faz pose de postal, confessa que fica“ muito mais pela cidade de Gaia” por causa do trânsito, mas revela o seu refúgio semanal, que funciona também como um ritual: passear junto ao mar, ir à praia da Aguda e, sobretudo, ao parque da Capela do Senhor da Pedra, onde vai“ praticamente todas as semanas” com os filhos.“ Se calhar, é o sítio onde passo mais tempo, sem ser em casa”. Ali a família encontra espaço e tempo, e as rotinas ganham leveza. Quando lhe chamam“ beirão portuense”, aceita com um sorriso implícito:“ Sem dúvida nenhuma, essa é a expressão correta”. Porque a síntese é também essa: um homem do interior que se fez do Norte por convivência, trabalho e pertença; um profissional que se foi construindo até caber na exigência do FC Porto; e um pai que encontrou, entre Gaia e Porto, a sua vida de agora. Lá em cima, a olhar as duas margens, procura uma palavra para aquilo que sente e escolhe duas, como quem não quer perder nada:“ gratidão” e“ felicidade”.“ Aquilo que sinto quando estou nesta cidade é muita gratidão”.
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