Dragões #471 Fev 2026 | Página 20

TEMA DE CAPA
FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES

A seleção servida ao almoço

Outubro de 2018: a convocatória chegou à refeição, sem aviso nem cerimónia. A estreia surgiu ao minuto 86 e só no dia seguinte o miúdo do interior percebeu a dimensão do que tinha conseguido.
Gravou a data no calendário e na memória mesmo sem precisar o dia exato. Outubro de 2018.“ Deve ser quando me estreei pela seleção”, arrisca, com a certeza de quem sabe onde estava quando a vida mudou de patamar. E, naquele momento, a mudança tinha um detalhe que torna tudo mais humano – não foi num gabinete, nem num telefonema solene, nem num vídeo perfeito para redes sociais. Foi ao almoço, com a equipa. Até ali, admite nunca ter acreditado“ ao máximo”,“ a sério” que fosse possível chegar à seleção nacional estando no Tondela. Por isso, quando a convocatória aconteceu, a sensação foi a de um choque feliz, quase irreal. Nesse dia iam jogar em Guimarães, contra o Vitória, e estavam todos a preparar o jogo da noite. A mesa fervilhava, conversas cruzadas, aquele barulho de rotina. Ao fundo, uma televisão. Fernando Santos começa a anunciar os convocados e, segundo Cláudio, nem o Tondela estava à espera, porque a informação chegava por e-mail poucos minutos antes. O clube não esperava e ele muito menos. E então acontece o instante que ele conta como quem ainda sente o peso dos braços por cima:“ De repente, sou engolido pelos meus colegas”. Parabéns, pancadinhas, gritos, festa imediata. Por segundos, ficou sem perceber bem o que estava a acontecer. A imagem é bonita precisamente por não ser encenada: um grupo a rebentar de alegria por um deles, como se a convocatória fosse de todos. Não havia melhor maneira de receber a notícia do que“ com aquele grupo, com aquela equipa”, porque“ foi também graças a eles” que chegou lá, admite. Depois veio a estreia, no Hampden Park, em Glasgow, num amigável com a Escócia que Portugal venceu por 3-1. E não veio com tempo para processar, para pensar duas vezes. Entrou ao minuto 86, para o lugar de Beto, e diz que aí“ nem tens tempo de sentir”. A emoção não foi nervosismo, foi outra coisa, mais luminosa e instintiva:“ Foi mais alegria”. Lembra-se de aquecer e de ser chamado de repente.“ Foi mesmo uma explosão de felicidade”, precisa. A consciência do feito chegou mais tarde. Não no momento, nem sequer no fim do jogo.“ Só no dia a seguir” caiu na realidade do que tinha acontecido. E quando cai, cai com o contraste todo. Um miúdo do interior de Portugal,“ com um metro e oitenta e poucos”, a chegar à seleção. Para Cláudio, aquele passo não foi apenas um marco no currículo, foi uma espécie de validação total do caminho:“ Sinceramente, acho que foi um dos maiores feitos da minha carreira.”
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