TEMA DE CAPA
FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES
“ DESDE PEQUENINO, AQUILO QUE EU QUERIA SER ERA VETERINÁRIO”, CONTA. CRESCEU EM TOURO, UMA PEQUENA ALDEIA DE VILA NOVA DE PAIVA, RODEADO DE ANIMAIS, COM O AVÔ COMO PRESENÇA CONSTANTE NESSE PEQUENO MUNDO DE ROTINAS SIMPLES E MÃOS SUJAS DE TERRA.
melhor sentido: ver, rever, aprender, absorver.“ Foi uma paixão que cresceu e que consegui construir”. A baliza não foi um destino imediato, mas foi uma escolha repetida, confirmada dia após dia, defesa após defesa. Quando o tema sai do relvado e entra no“ depois”, Cláudio não fala como quem está a contar os dias para pendurar as botas e as luvas. Fala como alguém que já começou a ver, no quotidiano, um espaço real para continuar a ser útil. Há algum tempo, numa pequena entrevista, deixou no ar a ideia de um projeto pensado para ajudar colegas a construir uma carreira paralela ou posterior ao futebol, e confirma que isso não só existe na cabeça como ganhou urgência através da observação direta. A motivação vem do que vê todos os dias no balneário: miúdos que chegam com 17 e 18 anos, largam a família muito cedo e caem num clube e num contexto completamente diferentes. Dá exemplos concretos, com nomes da casa e do presente, como quem quer provar que não se trata apenas de teoria:“ O William, o Oskar, o Victor …”. E explica onde sente que pode fazer a diferença. Não é na parte desportiva, porque aí“ já há muita gente”. É fora do campo. É na orientação do“ lado B” que, tantas vezes, decide o lado A: a forma de se apresentarem, de se protegerem, de comunicarem.“ Na assessoria, no marketing, na comunicação deles”, acrescenta com clareza. Não vende o projeto como uma ideia vaga, assume vontade de pôr a máquina a trabalhar e até confessa impaciência.“ Até gostava que já estivesse em andamento”, admite, embora reconheça o óbvio – por enquanto, não é fácil conciliar com a carreira, com o ritmo e com as exigências do dia a dia. Ainda assim, deixa uma promessa com peso de compromisso:“ Tenho a certeza de que vou fazer um bom trabalho”. O que o habilita a essa função, diz ele, é ter vivido um ponto raro de interseção que atravessou gerações. Está há tempo suficiente no futebol para ter convivido com“ os últimos dos moicanos”, num período em que havia maior margem para excessos e para outro tipo de sociabilidade, e vive hoje o tempo dos jogadores que olham para Pepe, Cristiano Ronaldo ou Thiago Silva como referências absolutas na gestão do corpo, da idade biológica, do sono, da alimentação. Cláudio acredita mesmo que a geração dele foi“ a última” a tocar nos dois mundos:“ A geração antiga e a geração atual”. Reconhece que antigamente havia“ um bocado grande de excessos”, mas sublinha o contexto. Não havia a mesma vigilância, nem redes sociais, nem o mesmo escrutínio, e os balneários eram“ muito mais vividos”. A convivência ocupava espaço real: cartas nos quartos, almoços longos, viagens em grupo, conversas no autocarro, programas combinados com as famílias.“ Era diferente”, insiste, porque o tempo partilhado criava uma cola própria.“ Creio que a amizade era mais genuína”, acrescenta, sem a menor intenção de atacar o presente. Hoje, o futebol é“ muito certinho, muito profissional”. Acaba o jogo e entra o manual:“ Temos de comer isto, não se pode beber, não se pode isto, não se pode aquilo”. Ganha-se em profissionalismo e longevidade, mas, na visão do guardaredes, também se perde alguma coisa do lado humano. E é aqui que surge a tese que Cláudio parece querer levar para a vida toda, dentro e fora do futebol – equilíbrio.“ Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.” Um meio termo
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