Dragões #471 Fev 2026 | Page 18

TEMA DE CAPA
FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES

A baliza foi inventada

A história de um beirão que não herdou o futebol, mas que o levou para casa. Do fascínio por Iker Casillas ao projeto que pretende orientar quem chega demasiado cedo ao topo.
Se o futebol não lhe tivesse ocupado o calendário e a vida, Cláudio Ramos imaginar-se-ia agora longe de balizas e relvados.“ Desde pequenino, aquilo que eu queria ser era veterinário”, conta. Cresceu em Touro, uma pequena aldeia de Vila Nova de Paiva, rodeado de animais, com o avô como presença constante nesse pequeno mundo de rotinas simples e mãos sujas de terra. Era aí, no contacto diário com“ animais de todo o tipo”, que o futuro ganhava forma. Só que, com o passar dos anos, os sonhos conquistaram outros contornos num campo substancialmente diferente. A inclinação também se fez de estudo e curiosidade, não apenas de treino. Entrou no percurso académico em Desporto e Atividade Física, em Viseu, e foi alimentando a necessidade de entender o jogo e o fenómeno para lá das quatro linhas. Já mais tarde, procurou estar“ mais dentro do assunto” com uma pós-graduação na Liga Portugal, mantendo essa ideia como fio condutor, aprofundando conhecimento, abrindo horizontes, olhando para o desporto como um território amplo, feito de muitas modalidades e muitos detalhes. A paixão pelo futebol não lhe chegou por contágio familiar. O que existia era uma ligação“ maior” do pai, mas não uma tradição que empurrasse o pequeno Cláudio para o campo. A bola apareceu mais como instinto do que como herança.“ Jogava sozinho, a chutar contra a parede, a dar toques”, conta.“ Passava o dia com a bola”. A frase que amarra tudo, sem truques nem romantismo forçado, fica dita como quem sabe:“ Essa paixão nasceu comigo, não foi uma paixão que eu seguisse de alguém”. Mas a baliza não nasceu com ele. Foi“ inventada” num desses lugares improváveis onde a vocação se revela sem cerimónia, num pavilhão, nas segundas-feiras em que o pai ia jogar futsal. Cláudio acompanhava-o e, nos intervalos, ia para a baliza enquanto o pai lhe atirava bolas“ na brincadeira”,“ a passar o tempo”. Um dos colegas do pai era treinador dos infantis do Sport Club Paivense, o clube onde Cláudio iniciou o caminho. Viu-lhe qualquer coisa, um traço, um reflexo, uma predisposição, e lançou o convite para que fosse treinar como guarda-redes. A idade rondava os 9 / 10 anos e a verdade é dita sem a tentação do mito:“ Não posso dizer que nasci e que sempre quis ser guardaredes, porque estaria a mentir, mas comecei a ir aos treinos e fui gostando”. No início dos anos 2000, Portugal tinha referências fortes entre postes, como Vítor Baía, mas a figura que desde logo o conquistou fazia-se ouvir em castelhano. Sem falar em“ ídolos”, porque não os reclama, assume o fascínio que Iker Casillas lhe provocava.“ Foi o guardaredes que sempre segui e que sempre admirei”. Há ali uma identificação difícil de explicar, talvez“ pela estatura” e por um físico semelhante, mas também por um perfil explosivo, forte no um para um. Cláudio não só o seguiu como teve um momento raro para fechar o círculo: jogou contra Casillas, então guarda-redes do FC Porto, quando estava no Tondela, trocou camisolas e guardou a dele como quem guarda uma prova material de uma história antiga. A partir do momento em que se fez guarda-redes, a paixão ganhou outra forma e cresceu como hábito diário:“ Era daqueles que passava horas e horas no YouTube a ver vídeos de defesas de todos os guarda-redes, de todos os campeonatos”. Não era um fascínio“ de nascença”, insiste, era construção. E essa construção foi obsessiva no
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