TEMA DE CAPA
FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES
A“ CAVALGADA” DO TONDELA ATÉ AO PALCO MAIOR ACABA POR SE CONFUNDIR COM A PRÓPRIA MATURAÇÃO DE CLÁUDIO.
fizeram mais pontos do que o Tondela”. A base, para ele, não foi magia, foi espírito. A partir do momento em que agarra a titularidade a sério, Cláudio admite que passou a viver com o impulso de jogar sempre. E“ sempre” aqui não é modo de dizer. Fala de uma sequência longa, de um corpo levado ao limite pela vontade de não largar o lugar.“ Independentemente de estar com mais dores ou menos dores, eu jogava sempre”. Chega a contar, com brutal honestidade, um episódio passado em Portimão, já em sofrimento:“ Tinha uma lombalgia, praticamente não me mexia e pensei: o que é que eu estou aqui a fazer?”. Sabe que,“ estupidamente”, podia até estar a prejudicar a equipa, mas aquilo era um instinto competitivo quase primário. Não queria dar espaço ao acaso. Esse lado competitivo estendeu-se também à relação com os colegas guardaredes. Diz que sempre teve“ grandes relações”, amizades para a vida, mas logo acrescenta a frase que desmonta a parte sentimental com a crueza de quem estava em combate:“ Eu não lhes dava oportunidade de jogar”. E explica o raciocínio sem máscara: se o outro entra, faz um grande jogo e a equipa ganha, ele pode“ não jogar o próximo”. Há também um capítulo na Luz, em abril de 2018, que entra na cultura popular portista, mesmo com Cláudio do outro lado. O famoso 3-2 em Lisboa, ligado ao“ Penta Xau” do Benfica, aparece na conversa como uma noite perfeita, ainda por cima“ ajudando o Porto” a ser campeão. E há ainda algo nas entrelinhas que ele puxa para a superfície: durante anos, muita gente colava o Tondela ao Benfica, até pela figura do presidente, que nunca escondeu simpatia. O rótulo ganhou força depois de um 5-0 sofrido em casa e a equipa carregou essa“ raiva” como combustível.“ Queríamos meter cá para fora”. O 3-2 foi, por isso, mais do que um resultado, foi uma resposta. E o detalhe delicioso, de estrada e balneário, fica dito sem esforço:“ Íamos no autocarro nós próprios a cantar a música”. Mais tarde, já na retoma do Covid, há outro jogo na Luz que o aproxima do universo portista ainda antes de vestir de azul e branco. O FC Porto vinha de uma derrota em Famalicão, a liderança tremia e o Tondela segura um 0-0 com uma exibição grande de Cláudio Ramos. Aqui, já fala com o jogo dentro da cabeça:“ Lembro praticamente dos lances, tenho um isolado com o Rafa”. Um jogo sem público, estádios vazios, um ano estranho. E, pouco depois, chega o que ele descreve como o cume de uma viagem improvável:“ Chegar ao maior clube de Portugal”. O tom muda aí. Fica mais íntimo, mais espantado. Chegar de um clube como o Tondela para o FC Porto ainda lhe parece“ inacreditável”. E diz uma coisa que vale ouro para fechar este tema e abrir o próximo:“ Nem nos meus melhores sonhos isso podia acontecer. Tenho um orgulho enorme por ter conseguido e por ainda cá estar.” E, no fundo, é o mesmo miúdo que saiu cedo de casa, que fez viagens de duas horas para jantar e almoçar em casa, que treinou à noite em divisões duras e que agora olha para trás como quem vê um mapa cheio de estradas improváveis que, por teimosia, fé e competição, acabaram todas por vir dar ao Dragão.
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