Dragões #471 Fev 2026 | Página 16

TEMA DE CAPA
FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES que a saudade trocou de lugar.“ Custoume aqueles primeiros tempos, mas depois já não queria outra coisa”. Cláudio garante que, em miúdo, não vivia com o medo a fazer-lhe sombra. A hipótese de a carreira falhar por não chegar ao patamar desejado, por uma lesão ou por outra quebra qualquer, simplesmente não lhe ocupava a cabeça.“ Não”, responde sem hesitar. Quando saiu para Guimarães, aos 13 anos, não via a mudança como um teste existencial nem como uma escada para o profissionalismo. Não tinha ainda essa consciência de guerra. No Académico de Viseu estava num contexto competitivo, via o Vitória como“ um clube melhor”, e isso bastava-lhe.“ Não tinha a mínima noção daquilo ao que eu ia nem por que ia lutar”. Não foi com a ideia de“ tenho de me afirmar”,“ tenho de ser sénior”,“ quero ser profissional”. Foi mais simples e, ao mesmo tempo, mais puro, ia jogar futebol. Ia para um sítio com melhores condições para aprender e ser melhor guarda-redes.“ As coisas foram surgindo muito naturalmente”, diz, como quem confessa que o seu motor era a paixão, não o cálculo.“ Nunca fui com esse intuito de pensar muito à frente”. Mas essa naturalidade encontra um choque quando o futebol deixa de ser só formação e passa a ser vida adulta, contrato, expectativa. Já com vínculo profissional assinado, já com outra ideia de si próprio, é que a realidade morde. E aí, sim, um empréstimo pode parecer um passo atrás, sobretudo quando o cenário muda de repente – de um clube estruturado como o Vitória para um contexto em que a rotina é outra e o“ profissional” tem fronteiras mais permeáveis. O exemplo que dá é concreto e quase cinematográfico: foi enviado para o Amarante, da terceira divisão, e passar a treinar“ às oito e meia, nove da noite”, porque os colegas trabalham durante o dia. Um é mecânico, outro trabalha num café. Tirando os jovens emprestados,“ quase todos” tinham uma profissão fora do futebol, como era normal naquele nível. É aqui que Cláudio transforma a experiência num argumento maior, não apenas sobre a própria carreira, mas sobre a formação de hoje. Diz que a quem cresce“ em grandes clubes”, com“ todas as condições” e até“ mordomias”, pode faltar precisamente um ano ou dois a conhecer uma realidade diferente, a sentir dificuldade, a perceber, por contraste, o que é um balneário de topo. Não como castigo, mas como vacina, porque voltar depois desse mergulho muda o valor que se dá às condições e muda a fome de ficar.“ Eu estive lá, agora voltei aqui, mas agora não quero sair nunca mais daqui, porque eu já sei o que é estar ali”, resume. No caso dele, a descida fez bem. E diz isto sem vergonha, com a honestidade de quem não precisa de dourar a narrativa:“ Esse bocado fez-me muito bem”. Passou pela terceira divisão e não guarda essa fase como um período menor. Pelo contrário:“ Adorei jogar lá. Se calhar, foi o ano em que fui mais feliz”. No fim, o que poderia parecer queda foi processo. É essa a palavra que ele insiste em dar aos empréstimos. Não são recuos, são etapas que“ mantêm um processo” e fazem crescer. A história de Cláudio Ramos com o Tondela podia ter ficado por acontecer. Ele próprio diz, com uma espécie de ironia tranquila, que“ nunca iria para o Tondela”. No ano anterior, ainda antes do empréstimo ao Amarante, o clube beirão, então na Segunda B, já o queria, mas o Vitória travou a saída com um argumento prático e revelador do tempo. Era“ muito longe” para acompanharem jogos e Amarante era“ mais perto”. Cláudio foi para o Amarante, foi campeão, subiu e quando o cenário mudou e o Tondela voltou a surgir com força, a decisão transformou-se numa teimosia de princípio.“ Agora vocês querem que eu vá para lá? Não, agora não vou”. Houve ali“ guerra” e dúvida, uma resistência inicial que só cedeu mais tarde, empurrada pela proximidade de casa. A mãe novamente a puxar pelo regresso. No Tondela, nada lhe caiu no colo. A concorrência não era uma palavra bonita, era um rosto. Quando chega, encontra do outro lado alguém com currículo e peso de balneário: Avelino, já com 36 ou 37 anos, antigo Dragão de Ouro, com a experiência de Primeira Liga e de FC Porto.“ Imaginem … Eu com 18, era uma criança”. O caminho até à titularidade fez-se entre subidas, entradas e saídas do onze, e uma realidade típica de quem cresce:“ Quando se é jovem, erra-se muito e nós só aprendemos e só crescemos com o erro”. Mas naquele período não havia tanto espaço para o erro ser didático. Errava-se e entrava outro. Mesmo assim, aguentouse de pé, com trabalho e uma ideia que já tinha aparecido antes na conversa como motor de sobrevivência: resiliência.
“ Consegui, acreditando em mim. Sempre”. A“ cavalgada” do Tondela até ao palco maior acaba por se confundir com a própria maturação de Cláudio. E há um ponto de viragem que, por acaso, cruza o lugar que hoje representa. Um dos primeiros grandes momentos no Tondela acontece precisamente no Estádio do Dragão, num jogo em que poucos acreditavam numa equipa que parecia condenada à descida de divisão. Cláudio coloca o foco no homem que, para ele, manteve o edifício de pé quando todos já o tinham dado como ruína: o treinador.“ O Petit tem um mérito enorme”, reconhece. Quando a despromoção parecia ser já um facto consumado, ele chegava ao treino com a mesma mensagem, repetida como um mantra de sobrevivência:“ Eu acredito, eu tenho a certeza de que nós não vamos descer”. A chama não era motivação de ocasião, era rotina diária. O jogo no Dragão surge então como uma espécie de rastilho e faísca num barril de descrença. Uma equipa“ a 10 pontos da linha de água” ganha 1-0 e, a partir daí, o campeonato muda de forma. Cláudio descreve o sprint final como um absurdo estatístico e emocional: nos últimos jogos,“ acho que só o FC Porto e o Benfica
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