Dragões #471 Fev 2026 | Page 15

TEMA DE CAPA
FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES

“ Nem nos meus melhores sonhos …”

Do Torneio Lopes da Silva ao Dragão, Cláudio Ramos conta a saída de casa aos 13 anos, os empréstimos que“ fizeram bem” e a cavalgada em Tondela que o levou até ao“ maior clube de Portugal”.

O salto que o tirou da aldeia e o empurrou para longe da“ zona de influência” não aconteceu por acaso nem por um plano desenhado com antecedência. Veio do Torneio Lopes da Silva, a maior competição portuguesa de futebol juvenil focada no escalão de sub-14 em que representou a seleção distrital de Viseu e deixou sinais suficientes para um observador do Vitória de Guimarães o abordar no fim e pedir o contacto do pai. A ideia inicial era simples: ir a treinos à experiência. Só que, durante algum tempo, o telefonema não chegou e o assunto pareceu morrer ali, no fim do verão. Até que outra porta se abriu, maior e mais barulhenta. Saiu uma convocatória para a seleção nacional, numa daquelas primeiras concentrações que juntavam“ 30 e tal, 40 jogadores”, escolhidos entre os que se tinham destacado no Lopes da Silva. E foi“ a partir daí” que Guimarães voltou a aparecer de rompante. O Vitória ligou de imediato e, em vez de um teste, veio um destino direto, sem preâmbulos, sem“ experiência”. O problema já não era ser escolhido, era sair. Aos 13 anos, a distância não se mede apenas em quilómetros, mede-se no fio que prende uma casa à outra, sobretudo quando a casa é a mãe. Cláudio explica-o sem rodeios, com uma franqueza íntima. Era muito ligado à mãe.“ Dormi com a minha mãe praticamente até me casar”, conta. Filho único do lado materno, a decisão tinha um peso emocional que hoje, com videochamadas e estradas rápidas, muita gente subestima.“ Imagina: com 13 anos, tu deixas a tua mãe, deixas a tua família, deixas os teus amigos para ires para uma cidade a duas horas de distância”. E sublinha o contraste com o presente, porque na altura não havia FaceTime nem WhatsApp, não se falava“ a toda a hora”. O“ sim” foi, por isso, um pequeno braço de ferro familiar. A mãe resistiu, não o queria deixar ir. E é aqui que entram duas figuras como contrapeso, o pai e um tio, já falecido, mas determinante naquele momento.“ Pela minha mãe, eu não ia”, admite, descrevendo o papel do tio com a expressão crua de quem ainda sente a cena:“ Ele é que a chateou e quase que a obrigou a deixar-me ir”. No fim, a viagem fez-se e, com o tempo, a escolha virou crescimento. Guimarães não foi um cenário romântico de academia moderna. Foi outra coisa: uma espécie de liberdade vigiada por ninguém, com tudo o que isso tem de formativo e de perigoso. Cláudio olha para trás e faz uma confissão que diz muito sobre a diferença entre o futebol de ontem e o de hoje. Acredita que atualmente, nas academias e estruturas como a Casa do Dragão, existe“ todo um controlo, toda uma segurança”. Naquela altura, a realidade era bem mais crua.“ Digo muitas vezes à minha esposa que não sei se deixava o meu filho, com a minha idade, ficar nas condições em que fiquei.” E, ainda assim, a memória que guarda não é de medo, é de entusiasmo:“ Para nós era uma alegria”. Eram“ 20 miúdos, entre os 13 e os 18”, a morar“ praticamente sozinhos”, uma infância diferente, com a rédea mais solta e a sensação de que o mundo estava, finalmente, do lado deles. A saída custou nos primeiros tempos, mas a adaptação acabou por ser tão completa

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