Dragões #471 Fev 2026 | Page 14

TEMA DE CAPA
FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES

“ No fim, nos Aliados, levantamos a taça para ele”

Entre memórias de balneário e conversas no Olival, Cláudio Ramos recorda Jorge Costa como uma lição diária de liderança“ à Porto” e promete a retribuição que lhe parece inevitável: transformar saudade em homenagem e fazer do título um gesto para quem marcou o clube por dentro.

Quando se fala de gerações antigas, de balneários com cheiro a história e a códigos que não vêm nos manuais, Cláudio Ramos vai dar sempre ao mesmo nome. No Olival apanhava-se muitas vezes a conversar com Jorge Costa, alguém que encarnava essa escola até ao osso. E não era só pela carreira, pelo currículo ou pelo simbolismo, era por aquilo que transportava todos os dias sem precisar de levantar a voz.“ Além de tudo”, começa Cláudio, Jorge Costa era“ a história que tem no FC Porto” e“ todo o legado que nos deixou”: o que é ser um jogador à Porto, o que é liderar, o que é representar“ este clube e esta cidade”. Havia ali uma pedagogia informal, de mesa e de corredor, feita de exemplos e de pequenos alertas. Cláudio confessa que gosta de estar com“ pessoas desse tempo”, sentarse e ficar“ uma tarde inteira a ouvir histórias”. E Jorge era daqueles casos raros em que a conversa prende como um jogo grande. Sentavas-te, ouvias e ficavas com vontade de ouvir mais, resume, ainda que por outras palavras, o guarda-redes. A admiração não vinha da postura de lenda. Pelo contrário. O que o impressionava era a simplicidade.“ Uma pessoa que ganhou o que ganhou” e, ainda assim, falava“ como se nunca tivesse ganho”. Humilde, direta, sem vaidade. E com um instinto que Cláudio descreve de forma muito própria, quase sensorial: Jorge Costa tinha o“ cheiro do balneário”. Chegava e dizia-lhe, com a naturalidade de quem lê uma sala como se fosse um campo:“ Hoje não estou a sentir”. Não estava a falar de tática. Estava a falar de temperatura, de energia, de pequenas coisas que se somam e que“ mais ninguém tem”, porque“ ninguém viveu aquilo que ele viveu”. Eram sensações de quem atravessou balneários ainda mais antigos,“ sistemas hierárquicos maiores”, realidades mais autoritárias, e guardou dessa travessia um radar emocional afinado. Cláudio descreve esse efeito com uma imagem forte. Ouvir Jorge Costa era ficar“ bêbado” de histórias, no bom sentido. Uma espécie de embriaguez boa, feita de memórias, de lições e de identidade. E é por isso que a ausência dele pesa tanto no dia a dia.“ Faz muita falta”, diz, sem rodeios, porque não era apenas uma referência do passado, era uma presença do presente. Por isso, quando olha para o que vem aí, Cláudio fala com vontade de retribuição. Acredita que haverá, em maio, uma oportunidade especial de o recordar como ele merece, de lhe dar“ uma alegria, esteja ele onde estiver”. Não apenas pelo que Jorge foi como jogador, mas“ por tudo aquilo que ele era diariamente” e pelo que representava no clube. Cláudio encerra o assunto com um retrato que é também a defesa do homem:“ O Jorge adorava toda a gente”,“ não tem inimigos”,“ não tinha maldade”. A promessa fica feita em tom de compromisso coletivo e quase com destino:“ O Jorge merece muito que no fim, nos Aliados, levantemos a taça para ele”.

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