Dragões #471 Fev 2026 | Page 13

TEMA DE CAPA
FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES
JÁ TINHA SIDO CAMPEÃO NA SEGUNDA LIGA, MAS NADA SE COMPARA A“ GANHAR UM CAMPEONATO COM O FC PORTO.” com a equipa a ganhar. Cláudio não foge ao tema e até contextualiza:“ No ano passado tinham razão para assobiar”, este ano“ não têm”. Explica, no entanto, a pedagogia interna: avisar os mais novos de que a mesma massa que hoje aplaude amanhã cobra, e que isso faz parte.“ Os adeptos do FC Porto são adeptos que tanto celebram um carrinho bem dado como festejam um golo”. O recado, para quem está dentro, é pragmático:“ Ok, estão a assobiar-nos, mas nós vamos fazer o nosso jogo”. Marcas um golo e o estádio muda de tom. Preparação emocional também é treino. Nesse equilíbrio entre identidade e adaptação, reconhece mérito a Francesco Farioli. Diz que não tentou“ moldar” o FC Porto, tentou conhecê-lo e“ moldarse um pouco a ele”. E atira uma frase de peso:“ É um treinador à Porto”. Pela intensidade, pela dedicação, pela forma como prepara jogos. E nota a importância de ter ao lado gente que conhece a casa por dentro, como Lucho González e André Castro, capazes de transmitir o que o peso da camisola pede em cada deslocação, em cada viagem, em cada jogo“ difícil”. Há, porém, o lado mais duro do ofício. A conversa em que um treinador te diz que nem na Taça vais jogar é daqueles momentos que“ colocam muita coisa em causa”. Cláudio não faz pose:“ Não é
fácil.” O que o salva, diz ele, é o suporte fora do relvado e a escolha consciente das pessoas a quem recorre. Chegar a casa, falar com a mulher, ligar a amigos que não alimentam revolta vazia, que“ dizem as verdades”. E depois voltar ao essencial, continuar a trabalhar, porque“ as oportunidades vão surgir.” É aqui que define, com crueza, o lugar ingrato do número 2:“ Tu nunca jogas, ou jogas muito pouco, mas quando tu jogas tens que ter a performance do Diogo Costa, que é um dos melhores guarda-redes do mundo”. Não é fácil, mas é a profissão. O Mundial de Clubes foi, nesse sentido, uma montra inesperada. Integra a comitiva a pensar que vai“ de férias” e, de repente, tem de jogar. Defesas com mediatismo, redes sociais a ferver, elogios e críticas, como sempre. Para ele, o valor principal foi interno:“ Deu-me ali algum boost.” Um teste numa competição internacional com resposta à altura.“ Deixou-me muito orgulhoso”. Por se ter medido e por ter confirmado, a si mesmo e a quem o vê, que a confiança nele é justificada. Em casa, quem mais o puxa para a realidade é o filho Gustavo, de apenas seis anos. Com a sinceridade cruel das crianças e o amor que não sabe ser diplomático, Cláudio Ramos conta a cena pós-penáltis sem filtro, na ressaca da eliminação da Taça da Liga aos pés do Vitória.“ És uma vergonha, tu não defendes nada, tu não defendes nem um penálti!”, reclamou Gustavo a meio de um choro compulsivo. Cláudio ri, mas sente. Sente também porque o filho já tem noção do que é ser número 1 e número 2, e porque há o desejo claro de ver o pai jogar mais vezes. A conversa sobre o fim de carreira, que Gustavo não deveria ter ouvido, acabou por se transformar numa promessa. Cláudio tem contrato até 2027 e, depois disso, não sabe ainda o que fará, mas o filho, atento e a fazer contas como quem gere um plantel, pede mais.“ Mas podes jogar até 2030?”, perguntou. Mais tarde, subiu a fasquia:“ Podes jogar até 2031?”. Já sabia da renovação de Diogo Costa até 2030 e, na lógica dele, no ano seguinte é o pai que vai jogar. É nessa mistura de ternura e competitividade, tão infantil quanto séria, que o futebol também se escreve. Aos 34 anos, Cláudio fala do corpo com a serenidade de quem o conhece, pelo trabalho diário, pela alimentação, pelos hábitos. E diz uma frase que fecha o tema com futuro:“ Sinto-me exatamente como quando tinha 27 ou 28”. Olha para os dados, para as métricas, e garante:“ Estou exatamente igual ao que estava há seis anos”. A idade, por agora, não é limite. É mais um número a defender, como o 14.
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