TEMA DE CAPA
FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES guarda-redes para o FC Porto”, observa. Ser campeão deu-lhe outra cor e não foi só na fotografia. Na última jornada de 2021 / 22, entrar em campo com o filho Gustavo pela mão num estádio cheio e em dia de festa, foi“ realizar um sonho”. Diz que nem estava nervoso, estava“ mesmo feliz”, com“ uma energia e uma alegria incrível.” Já tinha sido campeão na Segunda Liga, mas nada se compara a“ ganhar um campeonato com o FC Porto”. É aqui que o discurso fica mais pessoal, porque ao longo da época há momentos em que os jogadores se perguntam se tanto sacrifício compensa:“ Tudo aquilo de que abdicamos, a nossa família, os nossos amigos, os jantares … Será que vale a pena?” A resposta chega num único dia, intenso e curto:“ Aquele dia faz todo o sentido e é um sentimento que não dá para explicar”. Cláudio Ramos liga essa lógica a perdas reais, mas sem dramatizar. Saiu de casa cedo, passa“ muito tempo no Olival”, falhou casamentos, festas e reuniões familiares.“ São coisas que passam e que não voltam atrás”, mas que se aceitam, porque se está“ a lutar por um objetivo”. Quando volta à tarde de 14 de maio de 2022, interrompe-se com honestidade involuntária:“ Olha, até estou arrepiado”. A família está sempre no centro da carreira, até no número que leva nas costas. O 1, que usou em Tondela, era o preferido de Cláudio e chegou a tê-lo ao alcance, mas em casa houve veto imediato.“ O 14 é o nosso número”, decretou o filho Gustavo, a chorar, e ficou.“ Vai ser sempre o 14.” Se um dia a Carlota entrar na negociação, então“ tem que ser o 30”, brinca o guarda-redes. No Olival, o hábito de chegar cedo diz mais do que qualquer discurso. Não por se achar“ mais profissional” do que os outros, mas porque para ele ser jogador“ é muito mais do que os 90 minutos”. É o balneário, o convívio, o dia-a-dia. Gosta de ir cedo para“ brincar com os roupeiros”, tomar“ um pequeno-almoço tranquilo”, conversar, fazer fisioterapia, viver o clube por dentro. E deixa uma observação que tem nostalgia e alerta ao mesmo tempo:“ Perdeu-se muito do passado com os telemóveis, com as novas tecnologias. Já não há aquelas brincadeiras e eu ainda gosto disso, ainda sinto falta disso”. Chegar cedo é também uma forma de manter aceso o que ainda vale a pena. Esse espírito vê-se no grupo de guardaredes que o FC Porto construiu: competitivo, mas com amizade verdadeira, sem teatro. Enumera nomes e fases, mas a ideia é simples:“ Conseguimos transformar essa competitividade em amizade”. Diz que com Diogo Costa há frontalidade sem ferida e críticas aceites“ na boa”, num vai-e-vem que faz crescer, e insiste num ponto que não quer que se perca:“ Somos genuinamente amigos”. Hoje, com três capitães a disputar uma posição( João Costa usa a braçadeira quando vai à equipa B), a liderança nasce do exemplo do trabalho sério e da capacidade de viver o clube“ de uma maneira tão grande”, ao ponto de contagiar todo o plantel. Se quem joga pouco treina assim, então quem joga muito“ também tem que dar o máximo”. Para Cláudio, a solidez defensiva que a equipa revela é sobretudo coletiva,“ é compromisso” com“ um objetivo comum”:“ Sermos campeões”. As“ clean sheets” explicam-se pela pressão bem feita, que começa na frente e termina lá atrás, pela vontade de ganhar segundas bolas, recuperar, dominar. E é aí, nessa imagem, que reencontra“ aquele Porto dominador” que conheceu enquanto adversário, quando o Tondela queria sair do meio-campo e mal conseguia respirar.“ Parecia que estavam sempre em cima de ti”, recorda. Até as derrotas entram nesta lógica, porque o que o impressionou no desaire em Rio Maior, frente ao Casa Pia, não foi o choque, foi a conversa. No autocarro, o grupo juntou-se, a equipa falou, alinhou, e a frase-chave foi esta:“ Não podemos entrar em pânico porque perdemos um jogo”. Não ficar preso à derrota, não deixar a ansiedade ocupar a semana.“ Amanhã é outro dia”. No Dragão, revela-se outra particularidade. A exigência do público pode vir em forma de assobio mesmo
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