TEMA DE CAPA
FEVEREIRO 2026 REVISTA DRAGÕES
O lugar onde o futebol não entra
No Touro, a casa, os avós, os primos e o café devolvem-lhe silêncio e chão. No Porto, a vida assentou. Entre as duas margens, segura-se ao essencial,“ principalmente à família”.
Se há duas coisas que seguram Cláudio Ramos quando o futebol aperta, são a família e a terra. Ele próprio aceita essa definição sem hesitar, mas faz logo uma distinção que diz tudo sobre prioridades.“ Principalmente a família”. A família direta, a que vive com ele todos os dias:“ A minha mulher e os meus filhos estão sempre comigo, são as pessoas mais importantes da minha vida”. Depois vem a mãe e o resto de uma estrutura afetiva que ele descreve como se fosse um mapa pequeno e fechado, daqueles em que toda a gente mora perto de toda a gente. A aldeia não é grande e isso, para ele, é uma sorte. A proximidade é literal. A família dele está ali, a família de Verónica, a esposa, também, sogros incluídos, tudo“ muito perto”. Essa geografia de gente dá-lhe uma força simples e constante, uma espécie de rede que puxa sem prender. E é por isso que o Touro tem um estatuto diferente de qualquer outro lugar. Não é só voltar a casa, é desligar. Cláudio explica-o com uma clareza quase terapêutica. No Porto pode estar“ cheio de problemas”, pode“ não jogar” ou estar“ lesionado”, mas vai ao Touro e acontece outra coisa.“ Esqueço tudo”. Fica um dia ou dois dias e, enquanto lá está, há uma regra: o futebol não entra.“ Não penso em futebol, não penso em problemas”. Vai à casa da mãe, passa pelo pai, vê avós, um tio, encontra primos, vai ao café, revê“ o pessoal lá da aldeia” que não vê há algum tempo. E há uma frase que resume o mecanismo do escape com precisão:“ Nunca tenho espaço, nem na minha memória, nem no meu pensamento … não me vem nada do futebol”. Para ele, é“ um escape incrível”. A reconstrução de uma casa no Touro encaixa nesse mesmo propósito. Um“ cantinho” próprio, um lugar para pousar e também para garantir que essa ligação não se perde com o tempo. No passado, quando estava no Tondela, chegou a imaginar outro caminho, mais perto das origens, talvez ficar por Viseu, mas a vida foi assentando noutro sítio.“ Neste momento tenho casa aqui” e a permanência no Porto já não é circunstancial. Verónica estudou cinco anos na cidade e, como ele nota com graça e verdade, a esposa“ já tem quase tantos anos de Porto como tem do Touro”. Gosta de estar aqui. Os filhos também. Estão estabelecidos.
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