ENTRE LINHAS
JANEIRO 2026 REVISTA DRAGÕES
VITÓRIA SC 0-1 FC PORTO
O resultado foi mínimo, mas a autoridade foi máxima. O FC Porto não teve pressa de parecer bonito, teve pressa de ser dono do jogo: encurtou o campo, escolheu os momentos, refreou o entusiasmo alheio e deixou o Vitória a correr atrás de uma bola que quase sempre tinha dono, mesmo quando não tinha brilho. O Vitória entrou com energia“ fora de série”, o FC Porto respondeu com cabeça fria e um plano que não se desmancha ao primeiro vento, com Diogo Costa a segurar quando foi preciso e a equipa a esperar pelo instante certo. E ele chegou. Depois de Samu acertar na trave num pontapé de penálti, foi o miúdo Pietuszewski, em estreia absoluta, a ganhar a grande penalidade que Alan Varela transformou aos 85 minutos, para uma vitória que não caiu do céu, saiu do controlo. Farioli explicou o que se viu sem precisar de floreados:“ Não somos super-heróis, somos uma equipa de trabalhadores.” E Varela resumiu o capítulo mais áspero da noite com uma frase que serve de legenda ao jogo inteiro:“ Quando não dá para jogar, temos de lutar.” Não foi um triunfo para coleção de highlights, foi um triunfo de equipa madura, daquelas que sabem sofrer sem perder o norte e sabem ganhar sem pedir desculpa. Agora vem a parte previsível. Lá para baixo, a conversa tentou transformar gestão em medo, paciência em falta de ambição e um jogo controlado num“ susto” por conveniência editorial. Mas o relvado não assina colunas. Em Guimarães, ficou escrito o que interessa. Golo de Alan Varela, depois de duas bolas nos ferros( primeiro por Samu e, mais tarde, por Borja Sainz) folha limpa e três pontos merecidos, desses que não fazem barulho, mas fazem distância.
Alan Varela não pediu licença ao ruído. Pediu a bola, bateu o penálti e resolveu o jogo. O resto ficou para comentário.
Quando o jogo pediu sangue-frio, ele acrescentou fogo: Deniz Gül fez o empate em Plzeň, devolveu o equilíbrio e deixou a fotografia a dizer“ ainda dá”.
VIKTORIA PLZEŇ 1-1 FC PORTO
Em Plzeň, o FC Porto descobriu uma daquelas noites europeias em que o futebol se apresenta embrulhado em gelo e fita-cola, com pouco tempo útil, muitas interrupções e um preço cobrado a pronto por um detalhe. Um remate cedo, um golo sofrido, e a frase de Farioli ficou a ecoar como diagnóstico clínico:“ um único erro” num jogo em que o adversário“ rematou duas vezes à baliza”. No resto, houve vontade e volume, mas não houve aquela lucidez de laboratório no último terço. O guião até ofereceu um atalho: mão sobre a linha de golo, vermelho direto a Vydra aos 45’+ 4 e penálti para repor a ordem no marcador. Só que a bola, por vezes, gosta de fazer de juíza moral e saiu-lhe a sentença torta. Samu falhou e a superioridade numérica passou de vantagem a ansiedade. Diogo Costa chamoulhe“ jogar com o coração e pouco com a cabeça”; Bednarek admitiu que contra dez“ podia ter sido mais bem controlado”.
A noite ficou com esse travo, com o jogo a pedir paciência e o relógio a pedir pressa. Quando a partida se tornou um teste de respiração, Deniz Gül entrou como quem abre uma janela. Aos 90’, rodou dentro da área e salvou um ponto que não brilha, mas mantém a porta aberta e a equipa dentro da história. Pelo meio, houve ruído suficiente para encher um relatório de ocorrências: protestos, VAR, tempo a escorrer pelos cantos e a sensação de que a bola passou demasiado tempo no exílio. Farioli foi mais direto do que diplomático sobre o“ pouco que se jogou” e sobre o tempo perdido que não voltou em compensação. Depois veio a matemática com olhar de fiscal. O FC Porto chegava à última jornada com 14 pontos, colado ao oitavo classificado, o Real Betis, e apenas um degrau abaixo, separado por um diferencial mínimo. A receção ao Rangers seria o tipo de noite em que não há lugar para moralismos de sofá.
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