ENTRE LINHAS
JANEIRO 2026 REVISTA DRAGÕES
SANTA CLARA 0-1 FC PORTO
O FC Porto fechou a primeira volta com um número que parece ficção escrita a régua e esquadro: 49 pontos em 51 possíveis, recorde absoluto, e uma liderança que já não era apenas confortável, era pedagógica. Mais sete pontos do que o Sporting, mais dez do que o Benfica. Nos Açores, a história foi curta e eficaz, como quem assina por baixo com um golo de Samu, que continuava a empilhar argumentos e a transformar vitórias difíceis numa especialidade. Francesco Farioli, porém, tratava o recorde como um resultado ao intervalo, bonito, mas incompleto. A“ maratona” ainda vai a meio, insistiu, e por isso a palavra de ordem é“ atitude”, com um detalhe deliciosamente desconfortável: entrar como se a equipa estivesse em desvantagem, mesmo quando a tabela parece um postal de boas festas. No mesmo tom de quem não deixa o balneário adormecer, o treinador vestia a equipa com verbos que não dão para pendurar na vitrine:“ trabalhar, sofrer e transpirar”. E quando os números tentavam pedir champanhe, ele respondia com água fria. Não há festa para
Nos Açores, o vento muda, mas o guião não. Samu voltou a fazer o essencial. Um toque, um golo, três pontos.
estatísticas, há apenas a obrigação de repetir a fome, de manter o desejo coletivo ligado à tomada. Samu disse-o com a simplicidade de quem decide jogos: o mais importante é a equipa vencer, e se ajudar com golo ou com trabalho, melhor. Pepê, por
sua vez, deixou uma frase que parece receita de sobrevivência para a segunda volta:“ acreditar em todas as bolas” e“ confiar desconfiando”. Confiança, sim, mas com o cinto apertado e o retrovisor sempre limpo, porque no FC Porto o recorde não é sofá, é ponto de partida.
FC PORTO 1-0 SL BENFICA
Este FC Porto tem uma leitura simples e um efeito perverso: percebese depressa, mas custa uma eternidade a contrariar. Na Taça, voltou a confirmar a regra e a pôr o Benfica de José Mourinho a fazer as malas mais cedo, com a serenidade de quem está habituado a transformar“ clássico” em caminho. Os Dragões seguiram para as meias-finais e, pelo caminho, ganharam mais do que uma eliminatória, ganharam uma noite de apresentação. A grande estreia de Thiago Silva deu ao jogo uma camada extra, daquelas que ficam na memória. No fim, ficou o detalhe que nem precisa de legenda: a despedida dos lisboetas ao som de“ Porto Sentido”, como quem fecha a porta devagar só para se ouvir melhor o silêncio do outro lado. Farioli falou como fala quem ganhou sem se perder na espuma.“ O ADN esteve em campo”, o jogo foi“ especial” pela ligação com as bancadas e a gratidão não lhe tirou a firmeza quando respondeu ao homólogo encarnado:“ O triunfo foi merecido”,“ a vitória tem um ótimo sabor”. E aqui o picante não está nas frases, está na postura, porque não é euforia, é convicção. É aquela maneira de dizer“ obrigado” enquanto se guarda o resultado no bolso. Depois, o italiano puxou do que realmente interessa para a segunda volta da liga, as“ boas sensações” e o“ ambiente fantástico” de um Dragão cheio, esse laboratório onde se fabrica coragem em série. E abriu uma janela para o que esta equipa é por dentro: Martim Fernandes fez 75 minutos com o nariz partido. Não é romantizar o sofrimento, é explicar, com um único gesto, por que razão este FC Porto raramente oferece atalhos. O espírito que quer“ implementar e manter” não é um slogan, é uma exigência. Diogo Costa assinou o fecho com a voz de capitão e o instinto de portista:“ É sempre um dia bom para se ganhar um clássico”, mas não há tempo para perfume, porque“ todos os jogos são como finais”. Rosario reforçou a ideia de balneário sem castas: quem começa e quem entra, todos com a mesma ambição.
Bednarek fez o golo e o Dragão fez o resto. Um clássico decidido na pele, na alma e no abraço.
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