Dragões #470 Jan 2026 | Page 49

ENTRE LINHAS
JANEIRO 2026 REVISTA DRAGÕES
FC PORTO 3-0 GIL VICENTE
O FC Porto navegou no dilúvio com a serenidade de quem sabe onde fica o Norte e saiu do campo com um 3-0 limpo, daqueles que não pedem nota artística nem revisão VAR de rodapé, com sete e dez pontos de almofada sobre os rivais de Lisboa, e 55 em 57 possíveis, marca que passa a constituir um novo recorde à 19.ª jornada. A meteorologia tentou jogar a lateral, mas a equipa jogou por dentro. Farioli elogiou um Gil Vicente que está em quinto lugar“ por mérito” e, ao mesmo tempo, sublinhou o essencial: há muito para melhorar, sobretudo na eficácia e no nível. Tradução – ganhar não chega, é preciso ganhar como hábito e treinar como se tivesse corrido mal. Samu sentiu o estádio antes de sentir a bola. Quarenta mil vozes a cantar-lhe o nome antes do penálti é mais do que apoio, é um contrato emocional assinado na chuva. Antes de William Gomes fechar as contas da noite, Martim Fernandes estreouse a marcar e chamou-lhe“ sonho”, mas fez questão de puxar a frase para o coletivo, como quem sabe que a primeira assinatura não vale sem o carimbo da equipa. E pelo meio, no balneário, o pormenor que faz toda a diferença: Farioli pediu a Eustáquio que falasse ao intervalo e o discurso foi de arrepiar. Há balneários com capitães, mas este parece ter uma mesa de chefes. Thiago Silva, feliz por mais uma folha limpa, atirou a fome para as competições da UEFA, até porque nunca disputou a Liga Europa e é um troféu que ainda não tem. Por agora, o campeonato vai sendo um desfile de competência, daqueles que molham a camisola, mas secam as dúvidas.
Última palavra da noite: quando o jogo já um pedia ponto final, William Gomes puxou da caneta, sentou o guarda-redes e escreveu o 3-0 com letra bonita.
FC PORTO 3-1 RANGERS
Um golo para reordenar a noite: Mora marcou, apertou o emblema e devolveu o estádio ao seu volume natural.
O Dragão fechou a fase de liga com a frieza de quem não precisa de fogo-de-artifício para provar que está vivo: quinto lugar, em igualdade pontual com o quarto, e a porta dos oitavos aberta sem bilhete extra para os play-offs. Contra o Rangers, o 3-1 foi mais do que uma vitória, foi um elevador a subir quatro andares de uma vez, com a placa“ melhor clube português em prova” a piscar sem pedir licença. E houve até um detalhe delicioso que o futebol adora. Sofrer cedo, respirar fundo e reagir com a serenidade de quem ajusta o nó da gravata no meio da tempestade. A reação coletiva que Bednarek sublinhou no final não foi só remendo, foi argumento. O FC Porto apanhou um susto, mas não perdeu o Norte, geriu a vantagem, controlou o ritmo e tratou o jogo como se trata um assunto sério. Rodrigo Mora abriu a noite com a naturalidade dos miúdos que parecem já ter idade para tudo e isso diz muito sobre a mentalidade do balneário. Não foi um golo para a fotografia, mas foi o primeiro capítulo de um guião escrito sem ansiedade e com a tal“ união do grupo” a servir de pontuação. Quando a equipa joga junta, até o relógio corre a favor. E agora vem a parte que Farioli gosta, com semanas limpas, tanque cheio e laboratório aberto. Quatro possíveis adversários( Estugarda, Ferencváros, Celtic ou Ludogorets) à espera do playoff, quatro estilos, quatro dialetos de dificuldade, mas o treinador já avisou que Istambul, o palco da final, ainda é uma cidade distante e não um destino no GPS.
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