Dragões #469 Dez 2025 | Page 52

ENTRE LINHAS
DEZEMBRO 2025 REVISTA DRAGÕES
FC PORTO 3-1 CF ESTRELA
Houve um instante em que o Estádio do Dragão ficou a preto e branco, como se a noite pedisse um susto para confirmar a coragem. Durou pouco. O FC Porto voltou a carregar no botão das cores vivas, venceu o Estrela da Amadora por 3-1 e fechou a 14.ª jornada com 40 pontos, o melhor registo de sempre dos azuis e brancos. Agora, como confessou Francesco Farioli,“ no final de cada jogo” já só há espaço para“ os próximos”. A segunda-feira começou com a pressa certa. Um cruzamento logo de entrada, uma sequência de aproximações e, aos oito minutos, até um festejo interrompido pela bandeira: Samu marcou, mas o fora de jogo devolveu o marcador ao zero. Foi apenas um aviso, porque o FC Porto continuou a empurrar o jogo para a baliza Sul, com Kiwior a lançar, Mora a ligar e Pepê a acelerar. Conservador, o adversário fechava-se enquanto os Dragões respondiam com paciência e com dentes. O golo surgiu à força do detalhe. Alan Varela desenhou um passe longo, Alberto Costa atacou a bola, chegou primeiro e acabou por ser derrubado na área. Penálti. Samu não quis poesia: remate seco, terceiro jogo consecutivo a abrir a contagem e mais um capítulo de eficácia num avançado que, como sublinhou o treinador, tem crescido na forma de“ interligar o jogo”. Depois o encontro mudou de temperatura. O FC Porto manteve o controlo, mas o ritmo baixou alguns graus e o intervalo trouxe aquela sensação perigosa de que“ está feito”. Não estava. À passagem da hora, Abraham Marcus empatou e a equipa respondeu ao único susto da noite sem entrar em dramatismos, como Farioli pede: sofrer pode acontecer, o importante é corrigir e reagir. Foi o primeiro golo de bola corrida sofrido no campeonato, observou o técnico,“ e isso diz muito”. Diz também que, quando acontece, a resposta tem de ser imediata. E foi. Dois minutos depois, o empate já era memória. Num canto que ficou a morar na área, houve insistência, houve segundas bolas, e Francisco Moura apareceu com a decisão de quem não pede licença: remate sem contemplações e um festejo que o próprio Farioli destacou como retrato de uma equipa que quer jogar“ sempre no limite”. Moura resumiu a noite sem rodeios:“ Dominámos o jogo e sofremos numa das poucas oportunidades”. O 3-1 chegou mais tarde, pelo corredor direito, com Rodrigo Mora a rasgar e a bola a ganhar vida própria na área. No relvado, chegou a parecer autogolo, mas o autor mudou de nome com a Liga Portugal a atribuir o golo a Samu. Ele, fiel ao instinto, já o tinha dito no fim:“ Eu toquei na bola”. Entre a dúvida e o crédito, ficou o que interessa: a tranquilidade regressou ao marcador e o FC Porto somou a 13.ª vitória em 14 jornadas num arranque histórico.
FC PORTO 4-1 FC FAMALICÃO
O Dragão abriu a Taça como quem desembrulha um presente antes da meia-noite: 4-1 ao Famalicão, bilhete carimbado para os quartos de final e clássico marcado com o Benfica no Estádio do Dragão. Farioli mexeu em seis peças e a equipa respondeu com aquela alegria pouco discreta de quem sabe que na prova rainha o protocolo é simples: ganhar primeiro, explicar depois. E, apesar de o estádio não estar cheio, a noite teve barulho suficiente para soar a casa cheia.
A história começou cedo e com letra bem legível: Froholdt foi à pressão, Mathias de Amorim escorregou, William Gomes agradeceu e escreveu o 1-0 como quem assina por baixo. O Famalicão empatou de bola parada, porque o futebol também gosta destas ironias, mas o FC Porto voltou a carregar no“ repeat”: recuperação alta, remate, recarga e Froholdt a encher o pé para o 2-1, como se tivesse mesmo essa“ bateria” extra de que fala o treinador. Depois houve o capítulo que não pede golo, pede sinal: Pepê cai na área, a falta nasce fora dela, o VAR olha, volta a olhar e mantém a versão oficial do lance. Farioli preferiu o sarcasmo ao grito:“ As imagens são claras”, só que“ se calhar não havia rede, estavam noutro canal e noutro local”, e até atirou o ano de 1958 para cima da mesa, convocando a História para testemunha num processo de conetividade que chegou aos Açores. Na segunda parte, o jogo ficou mais prático e menos cerebral: Mora entrou, Samu entrou, e a eliminatória começou a fechar-se com a frieza de quem sabe onde mora o primeiro poste. Samu assinou o 3-1 e, já aos 88 minutos, uma jogada com cruzamento, cabeceamento e encosto deu a Pepê o 4-1 e aquele grito de libertação que o banco inteiro entendeu sem precisar de legendas. Agora, o caminho para o Jamor passa por janeiro e por um clássico no Dragão, mas até lá a equipa de Farioli faz o que diz que faz melhor: vira a página e insiste na próxima.
O futebol, quando quer, é simples: cruzamento, cabeçada, silêncio nas dúvidas e 3-1 no marcador.
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