Dragões #469 Dez 2025 | Page 44

TEMA DE CAPA
DEZEMBRO 2025 REVISTA DRAGÕES

QUANDO O DRAGÃO GANHOU CORPO

Muito antes de ser sinónimo de gala, discursos e noites de salas esgotadas, o Dragão de Ouro foi apenas um desenho num concurso público e o eco distante de um deus asteca. Entre o Troféu Pinga e o projeto“ Xochipilli”, conta-se a história de como o FC Porto decidiu dar forma física a uma excelente ideia.
TEXTO de ALBERTO BARBOSA FOTOS de MUSEU FC PORTO

Hoje, olhar para um Dragão de Ouro é distinguir, no mesmo instante, o ponto alto do reconhecimento, mas a estatueta que todos associam à excelência portista teve de ser imaginada antes de existir. Antes de subir a palcos, passou por mesas de trabalho, esboços e decisões de um júri. O processo ficou registado na edição n.º 6 da revista Dragões, datada de 4 de setembro de 1985. Nessa altura, o Conselho Cultural do clube tornava pública a escolha feita após um concurso aberto a artistas e criadores. O objetivo era claro: conceber um galardão que pudesse ser entregue, ano após ano, a personalidades com mérito reconhecido ao serviço do FC Porto e que, ao mesmo tempo, fosse uma peça identificável e duradoura. A proposta vencedora tinha assinatura dupla: Celestino Machado e José Moreira. Os dois criadores, que ainda veriam outra das suas ideias receber menção honrosa, apresentaram um projeto com um nome inesperado para o universo azul e branco –“ Xochipilli”. A palavra remete para uma divindade asteca associada à fertilidade, à criação, às flores, à música e às celebrações da primavera. Foi nesse cruzamento de símbolos que nasceu a forma final da estatueta. O dragão, figura mitológica escolhida há muito como emblema do clube, é representado a romper de uma bola de futebol, imagem que traduz o movimento ascendente do FC Porto. A bola serve de base à criatura, que assume contornos de lenda: cabeça de tigre, corpo serpentino, asas de morcego. A intenção declarada pelos autores era simples e poderosa – sugerir vigor, monumentalidade e a ideia de um clube em permanente ascensão. Não tardou até que o Dragão de Ouro passasse do papel à prática. A primeira cerimónia realizou-se a 17 de janeiro de 1986, no Hotel Infante Sagres, em plena Baixa do Porto. Nessa noite foram entregues doze galardões referentes à época de 1984 / 85, marcada pelos títulos nacionais em futebol e hóquei em patins, pela segunda Bota de Ouro conquistada por Fernando Gomes e pela vitória de Aurora Cunha na Taça do Mundo de Estrada. A partir desse momento, o Dragão de Ouro passou a marcar, ano após ano, o calendário emocional do clube. Ao longo das décadas seguintes, a cerimónia foi mudando de cenário e ampliando a escala. Depois do Pavilhão de Treinos das Antas, em 1987, a gala percorreu espaços emblemáticos da

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