Dragões #469 Dez 2025 | Page 41

TEMA DE CAPA
DEZEMBRO 2025 REVISTA DRAGÕES
profunda e um sentido de justiça inabalável. O“ pior defeito” – não saber perder – foi também a virtude que o transformou no capitão que recusava baixar os braços e arrastava todos consigo. A onda de amor que se seguiu à sua partida foi outro dos pontos centrais da homenagem. Estela agradeceu a todos os que escreveram, falaram ou simplesmente sentiram a falta de Jorge Costa, em diferentes áreas da sociedade. Aos adeptos e sócios que esperaram horas no Estádio do Dragão para se despedir, aos que gritaram o seu nome, aos que acompanharam a família até ao último instante, deixou“ o mais profundo agradecimento”. Essa maré de carinho, confidenciou, ficará para sempre com eles. Houve uma palavra especial para o Colectivo, que continua a erguer a camisola com o número 2, mantendo o capitão em permanência nas bancadas que tantas vezes incendiou de entusiasmo. No meio de tantos rostos, alguns gestos ficaram gravados com particular nitidez. Estela fez questão de destacar dois atletas do FC Porto. Primeiro, Diogo Costa, o guarda-redes e capitão, pela“ delicadeza e simplicidade” com que sempre a cumprimentou. Disse ver nele traços do Jorge: humildade, gentileza, ausência de ego, a mesma capacidade de ser referência para as gerações futuras sem precisar de levantar a voz. Depois, Adriana Semedo, da equipa feminina, pela forma como confessou sentir falta do capitão quando olha para a bancada. Essas palavras, admitiu Estela, emocionaram-na profundamente e refletiram o compromisso que Jorge tinha em elevar o clube em todas as frentes. A gratidão estendeu-se a todos os que partilharam o dia a dia com ele, dos colegas de Direção aos funcionários que o acompanhavam nas rotinas mais discretas.“ A nossa gratidão não tem limites”, sublinhou, numa frase que poderia ser o resumo de toda a intervenção. Porque, no fim, o Dragão de Ouro é também um espelho da rede humana que rodeava Jorge Costa e o ajudava a ser o que era: um homem de equipa, mesmo quando já não vestia calções. Houve ainda um agradecimento que Estela fez questão de sublinhar, dirigido à Direção do FC Porto e, em particular, ao presidente André Villas-Boas. Reconheceu que esse agradecimento“ peca por tardio”, porque a dor e a falta de disponibilidade emocional demoraram a abrir espaço para certas palavras. Mas elas tinham de ser ditas: obrigado“ pela forma como cuidou de nós, pela sua competência humana, por nos ter estendido a mão quando mais precisámos, por todas as horas em que permaneceu de pé em homenagem ao seu amigo, numa dignidade que jamais esqueceremos”. Estela confessou que foi buscar forças à força do presidente, que copiou a sua postura para dar a Jorge a despedida que ele merecia e para estar à altura do homem que foi. Percebendo que, no coração do presidente, poderiam existir dúvidas ou culpa – a pergunta muda sobre, se não tivesse regressado ao FC Porto, o capitão ainda estaria entre nós –, Estela deixou uma mensagem clara: a família acredita profundamente que nada acontece por acaso.“ O Jorge esperou 20 anos para regressar a casa” e voltou graças a André Villas-Boas.“ Regressou quando o clube mais precisava dele”. Para a família, o reencontro entre presidente e capitão foi“ acima de tudo, um ato de amor e coragem” de ambos. É também aí que se encontra a essência deste Dragão de Ouro. Há vidas cujo propósito ultrapassa a própria existência e a de Jorge Costa é uma delas. Ao receber o prémio, a família fez uma promessa em voz alta: honrar a memória de um homem que“ nunca procurou aplausos, mas que os mereceu a todos”. Em nome da mãe, Maria Adelaide, e de toda a família, Estela agradeceu. Em nome de Jorge Costa, devolveu ao FC Porto e aos portistas o amor que sempre recebeu.
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