Dragões #469 Dez 2025 | Página 40

TEMA DE CAPA
DEZEMBRO 2025 REVISTA DRAGÕES

RECORDAÇÃO Jorge Costa

Fala-se muito em mística, mas ela vive em gestos simples: chegar cedo e sair tarde, amparar quem começa e honrar quem já cá estava, levar a sério cada treino como se fosse um jogo decisivo e disputar todos os minutos como se não houvesse amanhã. É desse conjunto de atitudes que nasce algo que não cabe em folhas de cálculo. Poucos encarnaram essa forma de estar como Jorge Costa, capitão que ajudou a levar o clube do coração ao topo da Europa e do mundo. Os 383 jogos, 25 golos e 21 troféus conquistados de azul e branco – muitas vezes com a braçadeira no braço – impressionam, mas ainda assim não chegam para traduzir tudo o que representa para o FC Porto. Desde cedo, Jorge Costa foi mais do que um defesa central aguerrido: foi um líder natural. Em campo, mandava na linha defensiva, mas também no estado de espírito da equipa. Sabia quando era preciso endurecer o jogo e quando bastava uma palavra ao ouvido para recentrar a atenção. Fora das quatro linhas, era ponte entre balneário e estrutura, voz respeitada em todas as direções. Representou o clube como jogador e, já depois disso, como dirigente, numa relação que atravessou décadas. A notícia da sua morte deixou um vazio que não se preenche. O Dragão habituado a comandar a defesa passou a viver nas bandeiras, nas camisolas erguidas, nas memórias partilhadas por quem o viu jogar ou privou com ele. É esse património afetivo que o FC Porto quis tornar tangível ao atribuir a Jorge Costa o Dragão de Ouro Recordação – uma forma de dizer, em voz alta, que o legado do capitão não acaba na linha do tempo, prolonga-se na identidade do clube. Em nome da família, foi Estela Costa a receber a distinção e a pôr em palavras a saudade. Começou com o coração apertado e uma certeza:“ O Jorge merecia estar aqui”. Não para ser enaltecido, sublinhou, mas para ser recordado como aquilo que foi antes de tudo o resto:“ Um homem íntegro, de uma honestidade rara, discreto e realmente bom”. Para Estela, e para quem com ele viveu, era“ o melhor marido, o melhor pai, o melhor avô do mundo”, o pilar em torno do qual a família se organizava. Numa sala habituada a aplaudir conquistas, falou-se de silêncio, de simplicidade e de caráter. Estela descreveu um homem que não precisava de se impor para ser referência:“ O Jorge liderava sem ego, inspirava sem esforço. Era assim em casa, era assim no balneário, era assim no mundo: inteiro, leal, verdadeiro.” O futebol era o seu território natural, mas quem o conhecia de perto sabia que por detrás da dureza competitiva havia uma lealdade

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